Meu Deus por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus, se sabias que eu era fraco.
(Carlos Drummond de Andrade)
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Sexta-feira, Maio 30, 2003
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" Jesus, don't want me for a sunbeam
Sunbeams are never made like me " Nirvana
Talvez eu devesse ter sido diferente. Pudesse ter feito melhor. Talvez se eu tivesse rido mais, mais à toa. Se eu não tivesse guardado meu sorriso como um bem precioso e inútil. Talvez se eu tivesse contado mais piadas, dividido mais o humor, mesmo que cínico. Se eu tivesse preferido as bonecas aos muros, as árvores, as bolas que sempre furavam depois de duas semanas. Talvez se eu tivesse os joelhos menos ralados de tanto cair dos patins, da bicicleta, do patinete e do escorregador. Talvez se eu tivesse teimado menos que Papai Noel existia, que não, não era para jogar sal nas costas do sapo e que ninguém conseguiria me matar no Mortal Kombat. Se eu tivesse comido menos doces, lido menos livros, passado mais tempo falando de meninos ao invés do ultimo Vídeo Game que saiu. Talvez se eu nem soubesse que o novo Vídeo game saiu... Se eu tivesse crescido mais depressa, se eu nem tivesse crescido. Talvez se eu lavasse meus tênis e arrumasse minha cama. Se eu pregasse pôsteres do Five na parede. Se eu soubesse o nome dos integrantes do Backstreet Boys no lugar do dos X men. Talvez então, só então, eu poderia ser mais como um raio de sol e não uma gota fria de chuva.
postado por: Maria Anita 7:35 PM
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Quinta-feira, Maio 29, 2003
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"Everybody's waiting for springtime
Well winter can be cozy too" K`s Choice
Obviamente, nasci no inverno. Sinto o frio quase nos ossos, entra pelos poros, embaixo da pele, se aloja em algum lugar entre o pâncreas e o intestino, nas costas, no pescoço, nos pés. Quando nasci não havia sol para aquecer nossas almas frágeis, não havia cor nas blusas de frio, não havia calor em nenhum aperto de mão. Ninguém deveria nascer no inverno, onde tudo seca, nada flori, onde os lábios murcham e tudo no mundo parece azul. No inverno onde o vento corta a pele e as piscinas são abandonadas. As almas nascidas no frio a ele são condenadas. O inverno se apossa de nossa aparência, de nossa alegria, ele toma todo brilho. O inverno nos manda para baixo das cobertas, para os cafés expresso, os pijamas dos smurfs, as pantufas do Pateta. Voltamos para nosso ambiente de origem, onde nada é excessivamente exuberante. Voltamos para nossa quietude pacata, para nossa roda de poucos amigos, seção de filmes no colchão, noites em casa curtindo o insistir da arvore na janela. O frio convida ao ócio e a tristeza melancólica de nossos espíritos. Quem nasce no inverno nunca vai se sentir totalmente confortável no verão, vai sempre invejar seu sol (que realmente aquece, não é inútil contra a pequenez dos Celsius) seus biquínis, seu vermelho... Ah, o vermelho... Como ele é pálido no inverno, como ele perde todo seu fogo, sua luz. O inverno apaga a juventude dos trópicos. O sorriso do inverno tem menos dentes, mas os abraços mais carinho, o dar de mãos mais significado e o mundo mais poesia. E quando olho o dia de hoje (londrino, Gabriel?) frio, e a perspectiva para amanha (fria), não consigo deixar de me sentir, tristemente, em casa.
postado por: Maria Anita 9:58 AM
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Quarta-feira, Maio 28, 2003
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"I want to run, I want to hide
I want to tear down the walls that hold me inside
I want to reach out and touch the flame
Where the streets have no name" U2
O prato caiu e quebrou-se em pedaços ínfimos. Cortou meus pés e o sangue sujou o chinelo branco. Manchou o chão e um tapete antigo da minha avó. Os cacos foram achados em parcelas, alguns, mais resistentes, dias depois. Atrás do criado, embaixo do sofá, no pé do meu primo. Meu sangue nunca saiu do tapete, mesmo depois da lavagem. A positivo, ligeiramente anêmico. O prato também não se recuperou e a cicatriz insistente às vezes acusa meu estabanamento. Caiu naquele dia distante o ultimo pedaço de torta, junto com o sangue, o pó, os cacos. Nos dias muito frios e cinzentos ainda penso naquele pedaço de bolo que nunca comi.
postado por: Maria Anita 12:27 PM
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Segunda-feira, Maio 26, 2003
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"Tell me why, I don't like Mondays
I want to shoot the whole day down..." Tori Amos
Não gosto de segundas feiras. Todas estranhas e tortas. As segundas são dias solitário e deprimidos, elas queriam ser Primeiras. Se as Segundas se chamassem Primeiras tudo ficaria bem com o mundo, tenho certeza. Imagine, você acordaria na Primeira ( um dia alegre e bem resolvido, por ser primeiro e tudo), depois de um bom Domingo de sol (nada impede que o Domingo continue sendo ele próprio).. tudo seria mais claro, mais colorido. Mas então mudaríamos o nome da Terça também. Nada de segunda pra ela, não precisamos de mais um dia frustrado. Algo alegre e engraçado, para combinar com a Primeira e com o Domingo. Podia ser o nome de um planeta, uma estrela, um huno, um carro, tanto faz. Talvez de uma planta ou flor: Margarida, Mangueira, Rosa, Capim, Azaléia... ou a melhor de todas... Comigo ninguém pode. Pronto, decidido... Domingo, Primeira, Comigo Ninguém Pode... Quarta e quinta seriam mudadas para Orion e Via Láctea, sexta para uma coisa mais terrena, um nome de sorvete ou talvez um prato gostoso... Galinhada. Sábado deixamos feliz como é. Domingo, Primeira, Comigo Ninguém Pode, Orion, Via Láctea, Galinhada e Sábado. Tenho certeza que todos seriam mais felizes se acordassem na Via Láctea, sabendo que Galinhada chegaria com sol...
Quero agradecer ao Márcio e ao Gabriel pelo apoio e a publicidade. Obrigada, meninos, eu não sei o que faria sem vocês. E a Camila, pelo comentario (primo) gentil.
postado por: Maria Anita 6:05 PM
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Domingo, Maio 25, 2003
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Sobre o humor:
"O sentido de humor se manifesta nos indivíduos medianamente neuróticos, naqueles que apresentam um certo fundo depressivo, uma ligeira tendência a cultivar sentimentos de culpa, um bom estoque de angústias e de agressividade latente. Para resumir, naqueles cujo armário contém um ou mais esqueletos. Sem esquecer que, exatamente por não serem refratárias às próprias neuroses, as pessoas dotadas de senso de humor são sujeitas a crises existenciais de menor ou maior gravidade. [...] O sentido de humor, portanto, surge quando as neuroses existem, mas estão sob relativo controle. Além disso, ele parece surgir diretamente de um espirito reativo e impertinente. Ele pressupõe, em quem o possui, a existencia de uma inteligencia transgressiva, criativa e poética, capaz de jogar com as palavras e de interpretar as situações a partir de ângulos originais e até incongruentes." Texto de Luis Pellegrini, Revista Planeta, Edição 368, ano 31, nº 5 Maio de 2003
... Agora deixa eu contar uma piada...
[ Especialmente para meus queridos da 59ª, que nunca falham em me fazer rir]
postado por: Maria Anita 1:00 PM
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Sábado, Maio 24, 2003
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"How can you be smiling, singing
How can you be sure I don't want you?
I don't want you, I don't want you anymore" Radiohead
Nunca sei o que eu não quero mais. Por mim, eu quereria tudo, para sempre. Quando não querer mais ficar aqui? Quando não querer ir embora? Quando não querer mais brincar de bola? Não querer mais passear no pedalinho? Subir em arvore? Tomar coca cola? ir ao cinema? Quando não querer mais um amigo, uma rivalidade, um amor? Quando não querer mais um abraço, uma mão na sua, um cafuné? Quando não querer mais nadar, andar de patins, comer algodão doce? Montanha russa, cd's do radiohead? Quando não querer mais a chuva, o vento, a lua? Não querer mais dormir, ou acordar? Como poder ter certeza de que o que você não quer mais, você realmente não quer mais? O que você deixa pra trás agora, como saber se não fará falta depois? Como jogar fora os velhos diarios, as velhas poesias? A cor exata dos seus cabelos? Como deixar pra trás um sorriso, a sensação de infinito? E se o que você deixar pra trás não voltar mais? e o mais assustador ainda: e se voltar?
postado por: Maria Anita 5:05 PM
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Sexta-feira, Maio 23, 2003
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" What you don`t have you don`t need it now
What you don`t know you can feel it somehow" U2
Preciso de promessas. Preciso de uma mão que me indique o caminho. Uma voz que diga, é por ali. Preciso de alguém que jure que vai ficar tudo bem. De placas na estrada. De atalhos. Preciso de uma fada madrinha. De três desejos. Preciso de uma cama macia e um mundo bom, pra quando eu acordar. Preciso de um espelho bonzinho, que responda afirmativamente todas as minhas perguntas tolas. Preciso de mentiras pra acreditar, e verdades que não doam demais. Preciso de um sorriso sincero e tênis confortáveis. Preciso que me protejam, mas que não me sufoquem. Que me libertem, mas sintam a minha falta. Preciso de bons conselhos e uma caixa de chocolate. De um grande urso de pelúcia e um dia de sol na praia. Preciso que me permitam escolher, de uma segunda opinião, de um carro a diesel. Preciso de distancia, pra sentir saudade. E de estar perto, para não sentir. Preciso...
postado por: Maria Anita 1:32 PM
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Quinta-feira, Maio 22, 2003
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" Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada " (Cecilia Meireles)
Se eu pudesse reinventar a minha vida, teria dinheiro. Não muito que pudesse não lhe dar o devido valor, mas suficiente para gastar com minhas superficialidades. Queria ter dinheiro fácil. Ganhá-lo com algo divertido, como pintar. Se eu tivesse que reinventar a minha vida, teria nascido pintora. Ou pianista. Algo suave e excepcional. Se eu pudesse reinventar a minha vida, gostaria de esportes. E melhor, seria boa neles. Não tanto de participar das olimpiadas, mas apenas para me divertir mais do que me frustrar. Eu teria memoria fotografica, para guardar os momentos como fotos eternas. Seria mágica, porque sempre preferi os mágicos aos palhaços. Se eu pudesse reinventar a minha vida, iria querer gostar de comer figado, só pra satisfazer a minha avó. Teria menos medos e mais vontades. Saberia cantar, para que não me dissessem que eu não sei. E dançar. Se eu pudesse reinventar a minha vida, teria olhos maiores e mãos menos frias. Se eu pudesse, seria metade do que sou hoje, e metade do que sempre quis ser, se pudesse.
postado por: Maria Anita 1:24 PM
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Quarta-feira, Maio 21, 2003
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Poema das Sete Faces
Quando eu nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração
Porém meus olhos
não perguntam nada
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucas, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
Se eu me chamasse Raimundo
seria apenas rima, não seria solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
(C.D.de A.)
postado por: Maria Anita 1:19 AM
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