Meu Deus por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus, se sabias que eu era fraco.
(Carlos Drummond de Andrade)
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Quinta-feira, Julho 31, 2003
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"We get these pills to swallow
How they stick in your throat
Taste like gold
Oh what you do to me
No one knows" The Queens Of The Stone Age
Como diria a outra lá: Ninguém merece um primeiro dia de férias assim. Ninguém.
Fui acordada num horário não de Deus, antes das sete, pelo barulho imenso do portão que se abria.
Minha garganta não colabora e estou sem voz, sem poder tomar o maravilhoso sorvete que tem aqui na geladeira, mal conseguindo comer qualquer coisa para falar a verdade.
Tive que tomar uma vacina.
Depois uma Benzetacil.
Justo eu, que odeio agulhas. Odeio agulhas com ferocidade impar. Vou doar sangue por promessa, tomo vacina por obrigação, e benzetacil porque minha mãe carrega no peito um lado sádico.
Sofri uma decepção. Cansei de pessoas que me decepcionam. Daquele tipo bonzinho e suave, que você deposita anos de confiança muda, só pra depois estragarem tudo com palavras simples. E o pior, nem se darem conta disso.
Meu coração quando quebra fica assim partido mesmo, sempre.
Algumas frases são muito pior do que agulhas (tentei evitar o clichê, mas gritou por mim, sinto muito)
postado por: Maria Anita 1:37 PM
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Terça-feira, Julho 29, 2003
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"Pois juro que a vida é bonita"
Clarice Lispector
As férias estão chegando (amanhã amanhã grita o coro ensandecido).
Minha mãe chega hoje.
Amanheceu de sol.
Minha garganta está melhor.
Minhas malas já estão prontas.
Só falta uma prova.
O terceiro período infernal está no fim.
Coisas boas aconteceram nesses quatro meses.
Me curei das minhas sete gripes.
Assisti a mais de uma dezena de filmes.
Li livros que não tinham nome de enzimas ou eram referidos pelo nome do autor.
Fiz novos amigos.
Tive mais filhos.
Me surpreendi.
Assisti a shows.
Comi ata.
Fiz as pazes.
Chorei pouco.
Ganhei um sorteio.
Fui a três festas juninas.
Revi pessoas.
Aprendi coisas inúteis.
Comprei uma bicicleta.
Andei de bicicleta.
Fiz aniversario.
Ganhei presentes. Muitos.
Ganhei festa. Três.
Ganhei abraços.
Ganhei cartas e telefonemas inesperados.
Ri até minha barriga doer.
Andei de pedalinho.
Fui ao parque de diversões.
A montanha russa tinha looping.
O algodão doce era roxo e deixava a língua manchada.
Nasceu o sonho de valsa branco.
As perspectivas são boas.
Juro.
O post conjunto acontece toda terça em parceria com o Gabriel.
postado por: Maria Anita 11:51 AM
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Domingo, Julho 27, 2003
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"E um dia os homens descobrirão que esses discos voadores estavam apenas estudando a vidas dos insetos..." Mario Quintana
Sim, somos orgulhosos. Somos egocentricos. Somos os melhores. Humildes e perfeitos, como diria a Luciana. Vemos pouco os nossos defeitos. Sabemos o melhor jeito de fazer, entendemos tudo, somos capazes, bipedes, inventamos os óculos, o avião. Sabemos ler, somos a civilização ocidental. Superamos os Maias, os Homo Sapiens e os Negros. Somos fortes, filhos do norte. Almoçamos no McDonnalds. É conhecido castigo vir bicho na proxima encarnação.
Por mim eu seria algo assim bem grande (se não fosse arvore, já falei que por mim seria um Salgueiro), um Elefante, uma Baleia, um falcão. Ou algo quase eterno, uma tartaruga, um Papagaio.
Ser humano é mais complicado que útil. A gente tem que passar horas pensando, descobrindo meios de se comunicar, tentando descobrir o sentido oculto das menores coisas.
Sem contar a garganta inchada, nunca soube casos de uma tartaruga com garganta inflamada.
E provas de Fisiologias que você não estudou.
Nenhuma grande invenção do homem paga o ferro que você vai tomar na prova de Fisio...a não ser, talvez, o chocolate.
Shh... vou parar de falar no chocolate, que posso reconsiderar...
postado por: Maria Anita 7:58 PM
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Sábado, Julho 26, 2003
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A febre caiu de 39 para 37. Estou orgulhosa do meu organismo que resolveu cooperar.
Meus olhos ardem e todo meu corpo dói. Me sinto uma boneca de pano.
Não estudei.
As provas estão chegando.
Meus finais de semana não tem manhãs.
É a setima vez que fico doente em menos de cinco meses.
As férias começam quarta.
Estou pobre.
Quero tomar sorvete só porque não posso.
Mentalize comigo: Eu vou dormir cedo hoje, eu vou dormir cedo hoje.
Odeio comprimidos.
Cante comigo: Hakuna Matata, é lindo dizer...
Terminei de ler Harry Potter.
Já comentei que quarta feira estou de férias?
Abgail morreu.
Não, não quero falar no assunto.
postado por: Maria Anita 9:28 PM
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"Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."
Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome. " Manuel Bandeira
Camila me fez lembrar que não falei de Bertoldinho. Era nosso cadáver nas aulas de anatomia. Foi ele que me ensinou sobre as Safenas, os intestinos, todos os musculozinhos das mãos.
Era terrivelmente feio, mas eu o amava. Tinha um ferimento na cabeça, uma orelha a menos que quase me fez nomeá-lo Vicent, em homenagem a Van Gogh, diversos hematomas pelos braços. Era o cadavér número 2, e oito pessoas se revezavam para descobrir seus segredos intimos. No começo com um interesse nauseante, que foi perdendo a magia com o decorrer dos meses, como acontece em qualquer relação.
E eu não queria comentar mas Bertoldo fedia. Fedia a queijo. Tenho horror a queijo desde então (menos as Mussarelas e os da Thallita). Outro dia não consegui comer um sanduíche que tinha Salaminho porque lembrava muito o corredor de anatomia.
Bertoldinho tinha nome, história, família, mas ele era timido e nunca me falava nada, então inventei uma para ele. Um passado. As meninas choraram por nossos mortos na Missa em Homenagem aos Cadáveres. Não participei, independente de qualquer conotação religiosa, eu já não suportava o formol, os olhos sem vida, os baldes cheios de órgãos humanos.
Como eu.
Como você.
Com o tempo eu não amava mais Bertoldo, só queria que ele fosse enterrado logo e nos deixasse em paz, e ficasse em paz. Apesar de nosso rompimento não ter sido amigável, quase sinto saudade dele às vezes, da sujeira que ele deixava no meu jaleco, nas luvas, na tesoura. De invadir sua carne frágil de gente. De ser fria, insensivél a condição da morte. De olhar para o corpo e pensar: Não tenho medo. De não pensar em nada depois de certo tempo. De como cantavamos durante a dissecação, como se estivéssemos costurando. Falavamos de desenhos antigos, filmes, da aula de histologia.
Brigavamos para ver quem dissecaria, no começo porque todo mundo queria, no final, porque ninguém queria mais. Estranho, como uma coisa pode ser tão importante para gente e depois, quase esquecida.
Bertoldo, mais do que sobre Nervos e Órgãos, me ensinou como se morre duas vezes.
postado por: Maria Anita 2:13 AM
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Sexta-feira, Julho 25, 2003
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"Aprendi com a madrugada. Coisas doces e simples. Ferocidades. O pequeno toque do medo. Aprendi com sua solitária escuridão o exato tamanho de minha casa, os sons da cidade quando todos dormem. As luzes dos carros deslocados, vagando pelo asfalto, ou simplesmente a do poste, brilhando eterna e vadia, lá fora.
Aprendi com a madrugada a extensão crua de todos meus pequenos atos, como soam altos meus passos no chão, o meu respirar, meu remexer no sofá e ainda assim, ninguém ouve. Ninguém acorda.
Aprendi bastante mantendo os olhos bem abertos. Aprendi a fumar. Seminu, na cama, uma musica insistente e profunda preenchendo o vazio, acendia um cigarro e observava a fumaça. Parecia poético. Eu, como eu parecia poético. Um menino triste, um jovem deitado, sozinho, seminu, fumando.
Pena não haver ninguém, nunca, lá, para apreciar a musica, a beleza de meus pequenos atos, da minha solidão. Pena não haver alguém para decifrar meus sinais, toda a simbologia que criei. Aprendi com a madrugada que ela quebra toda a poesia. Mesmo depois, mesmo quando eu dividia minha nudez, minhas introspecções noturnas, ainda assim a madrugada destruía a poesia.
Como eu tinha charme e ninguém nunca viu.
Eu daria o mundo por alguém que entendesse. Eu daria meu mundo. Ele é escuro e os dias não se distinguem das noites, ele é cruel e há monstros na rua, mas eu o daria, para quem o quisesse, qualquer um que descobrisse um modo de entrar. E então protegeria esse alguém com todo meu amor. Ninguém o amaria mais do que eu.
Eu lhe ensinaria os velados caminhos da noite. Eu ensinaria tudo que aprendi com a madrugada para qualquer um. Qualquer um que perguntasse, se interessasse, quisesse saber. Para qualquer um que adivinhasse a poesia por trás dos meus pequenos gestos. Ninguém nunca quis saber, porém, e eu permaneci em meu quarto escuro e vazio, cheio de Picassos, Monets e Rembrandts e ninguém para ver."
... É o trecho de um texto maior e antigo, da epóca do Vestibular ainda. Resolvi postar porque os meninos gostam dele e ando absolutamente sem humor para escrever hoje.
postado por: Maria Anita 12:18 AM
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Quinta-feira, Julho 24, 2003
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"O canceriano não monta uma família, constroi uma máfia"
(Em algum lugar, na extensa rede astrologica da Internet)
Nasceram. Eram três. Parto difícil, não queriam respirar, estavam de ponta cabeça. Mas são lindos meus mais novos filhos. Nunca falei deles, mas tenho muitos. Cinco do meu primeiro casamento: minhas fitas de Arquivo X. Serei eternamente grata ao Igor por ser pai das minhas meninas, ele não era o melhor marido do mundo, mas os episódios que gravou pra mim estarão no meu coração pra sempre. São minhas meninas, não têm nome. Minha sexta filha é Emily, minha cadela. Tão linda, a cara da mãe. Produção independente, essa. Ultimamente quem cuida dela são os avós, mas eu visito todo final de semana, praticamente. E não sou, absolutamente não sou, uma mãe desnaturada. Depois vieram James, Tobias, Vicenzo, Charlie, Olívia, nessa ordem. Tudo que amo e deu trabalho pra ganhar. Meu computador, o carro, meu violão, celular, bicicleta. Depois Abgail, minha vaca, que deram para eu criar. Essa me fez avó esse ano: Penélope, minha primeira neta.Tem também os filhos que tive com Bruno, que moram com o pai e eu pago pensão, mas não sei que educação o Bruno anda dando pra eles...Como se vê a família é grande. Nenhum nasceu de mim, mas é como se tivessem, e morro de ciúmes de todos. Me lançam olhares estranhos quando me vêem conversando com James, ou até chamando ele pelo nome, mas o que mais eu poderia fazer...filho é filho, a gente tem que amar. Agora nasceram minhas três mais novas crianças. Uma criação conjunta: O trabalho de MPC saiu. Já foi encadernado e está em mãos seguras. Comprei bombons caríssimos para comemorar o nascimento complicado e não me arrependo. Como diria Gladstone... E então (esfregando as mãos) valeu a pena?
postado por: Maria Anita 12:15 AM
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Terça-feira, Julho 22, 2003
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"Não vivo, mal vegeto, duro apenas,
Vazio dos sentidos porque existo;
Não tenho infelizmente sequer penas
E o meu mal é ser (alheio Cristo)
Nestas horas doridas e serenas
Completamente consciente disto."(Fernando Pessoa)
Persisto. Como sou insistente. A vida não está boa, estou com sono, minhas mãos andam frias, o quarto abafado. Acordo por obrigação, se pudesse não faria. Depois que amanhece, que meu corpo está lavado e o estômago cheio quase me esqueço que ando por aí vazia. Se enche de gente ao meu redor, meus amigos. Eu rio, dou as mãos, falo mal dos professores, conto os problemas, me divirto, me entedio. E quando a lua sobe novamente, impecável, volta à consciência. Os pés pisam de novo o barro vermelho e molhado da verdade, a única que conheço. Nada faz sentido. Pensei que fizesse, acreditei que livros, testes, o alinhamento dos planetas pudessem responder as minhas perguntas, apagar uma dor que sinto desde sempre, desde antes. Mas não melhorou, não resolveu, continuo presa ao meu silêncio ensurdecedor, aos meus defeitos. Continuo sem caminho, numa indefinição que é quase triste, incomoda às vezes, mas não impede realmente a vida de ir em frente. Sou do tipo de pessoa assim, a quem se ama quase por educação. Vivo mornamente, meus melhores momentos são roubados. Ainda não descobri o rumo a seguir, vou por onde me levam. Sou fácil, maleável, de vento, de lua. Resisto, continuo, a passos lentos, querendo ficar, querendo correr, sem saber qual o melhor caminho. Se existe mesmo um caminho melhor.
Post conjunto com o Get me away
postado por: Maria Anita 12:02 AM
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Domingo, Julho 20, 2003
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"Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.
Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexequíveis.
Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.
Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.
Domicílios, os passageiros.
Adeuses, os bem ligeiros.
Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.
Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.
Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.
Cores, o rubro.
Meses, outubro.
Elemento, o fogo.
Divindade, o logos.
Vida, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas."
Bertold Bretch
Bertoldinho tinha esse nome por causa desse poema.
postado por: Maria Anita 7:18 PM
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Quinta-feira, Julho 17, 2003
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" Ciranda cirandinha
Vamos todos cirandar
Vamos dar a meia volta
Volta e meia vamos dar" Canção infantil
Você acorda só porque precisa, se pudesse, se seu corpo tivesse poder de veto, ficaria na cama até as três. Mas seu corpo não manda nada e atrasado, levanta-se, apesar do frio, do cansaço, de genética e da cama que chama para seus braços gentis. Você entra no banho quente e quer ficar lá para sempre, mas a conta de energia subiu, o chuveiro faz barulhos estranhos e a prova começa em quinze minutos. Você vai para reunião de MPC, seus olhos pesam, seu estomago está vazio porque não deu tempo de tomar café, seus companheiros discutem e o sol não esquenta. Você quer Internet, mas a faculdade está em greve. Você volta para casa querendo entrar em coma profundo e morrer, talvez, se tiver sorte. Gasta seus últimos guardanapos e olha, com tristeza, para a pilha de gráficos que tem que fazer. Você desiste e, como ontem, vai tocar violão. Não é o que você faz melhor. Decide ir ao Posto encher o pneu da bicicleta. Está murcho há semanas. O dia começa a melhorar. Não está gelado, você não tem aulas, o sanduíche estava bom. O trabalho é chato, mas passou, querida, passou. Na janta te pouparam de comer sua própria comida. Sua mãe te liga depois de dias de silencio forçado, você está na metade de Harry Potter dois. Amanha é sexta feira, você se lembra. A casa está vazia, mas é pequena. Você consegue quebrar o telefone e derrubar umas pastas. Só mais um dia se passou, amanhã, quem sabe, tem mais.
postado por: Maria Anita 10:19 PM
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"I'm sane but I'm overwhelmed
I'm lost but I'm hopeful baby
What it all comes down to
Is that everything's gonna be fine fine fine" Alanis
Inventei desculpas para não estudar. Cheguei da Liliane e dormi. Depois fiz comida, coisa que não me animava há um pouco mais de dois milênios. Descobri novamente porque não gosto de cozinhar...não sei como fazer. O macarrão ficou um cruzamento entre chiclete de carne e o inominável, meu estomago até ficará satisfeito com a comida do restaurante amanhã. Depois de súbito quis treinar o violão (treino violão menos que cozinho, o que deve ser uma espécie de Record). Uma ou outra música depois, D. Silma chegou, para não abusar dos ouvidos dela parei de maravilhar a todos com meus imensos talentos artísticos. Abri o caderno. Como sempre acontece entrei numa daquelas grandes ondas de melancolia. Achei umas cartas antigas, do tempo que mudei pra Uberlândia. Minha mãe, minhas tias, primos. Umas amigas. Reli bilhetes de tempos imemoriais. Vários do Gabriel e da Thallita, que salvavam minhas aulas do Gladstone e da Amélia, uns do Jota, da Vivien, do Bruno. A Lísia. Algumas cartas mais recentes. Uma da Thallita durante as férias, do Milton quando chegou ao Rio, da Mary, a ultima do Gabriel. Reli uns textos pré-históricos que me fizeram rir aquele sorriso condescende. Estudar, não estudei, mas estou me sentindo imensamente amada.
P.S. = Depois que escrevi a Thallita me ligou e ficamos estudando pelo telefone até agora. Salvou minha pobre nota, que estava em franca decadência antes mesmo de nascer.
postado por: Maria Anita 12:09 AM
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Terça-feira, Julho 15, 2003
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" Today is just a daydream
Tomorrow we'll be castaway" Oasis
É o post conjunto da semana, olhei o e-mail para ver que frase tema seria a de hoje. Oasis... legal, boa essa Gabriel. Mas eu não me lembrava o que era Castaway. Dicionário, melhor remédio para ignorância, já dizia minha avó. Segundo ele: Pária, Naufrago, Réprobo, Rejeitado, Inútil, Individuo Abjeto. Não fez sentido. Pensei, li de novo. A musica era Fade in-out, peguei a letra inteira. Ainda não fez sentido. Não posso falar do que não tem lógica para mim. Já ia ler de novo quando me veio, um insight criativo que me falta durante as provas. Estamos todos tomando rumo, percebi. A vida quase faz sentido, temos objetivo, temos porque. Reclamamos por motivos justificados, quase não choro mais por chorar, sonambulamos nas aulas, nos divertimos nas festas, uns se deprimem e bebem, ficam, melhoram. A faculdade não é o que achamos que seria, mas nada nunca é. Em passos incertos e quase infantis continuo dando voltas em torno de mim. Mas o mundo parece caminhar pra frente e começo a perceber que talvez seja só seguir a correnteza. Gabriel mesmo postou ontem:
Eu até pareço perdido, mas acredite: estou acertando os meus passos.
Eu pareço perdida porque estou. Os caminhos soam familiares, mas não sei para onde ir. Tenho medo de seguir com o vento, porque se hoje tudo parece bom, tomorrow we`ll be castaway.
postado por: Maria Anita 12:24 AM
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Domingo, Julho 13, 2003
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"Home is where the hurt is" U2
Voltei pra casa. Última vez no mês. Deixei na mão os meninos no MPC, o churrasco da sala e o show do Jota. Todo mundo aqui arrumando as malas para viajar, o tefone toca para se combinar os últimos detalhes. Não sinto vontade de ir, nem de voltar para Uberlândia. Queria rever meus primos, deitar numa rede e passar a tarde, só comendo besteira e olhando pro tempo. Jogando um truco no intervalo, vendo os homens se enxarcarem de bebida para depois passarem a noite roncando. Queria ver as estrelas, a enorme represa meio fria e meio quente. Uma das esposas ter crises de ciúme, um menino e outro se matarem. Queria a vida pseudo calma da roça. Dirigir uma hora e chegar ao Araguaia, andar de Jet Ski pagando uma fortuna por uns minutos, andar de ultra leve com medo do morrer no rio. Queria pescar, jogar War e ganhar. Contar história de terror a noite e ficar com medo. Reclamar dos mosquitos, do chuveiro que não existe, da luz que tem que ficar acessa. Queria por uns dias, não duas semanas inteiras. Queria até sentir falta da internet, do cinema, do meu colchão. Queria Uberlândia por uma semana, duas, não o resto do mês todo. Queria não ficar de um lado para o outro, pendulando sem rumo nem porquê. Queria ter raizes profundas, como uma árvore. Tive um sonho de ser um enorme salgueiro. Quis voltar Salgueiro na proxima vida. Ser firme e bonito e em paz. Morrer depois de eternos anos no mesmo lugar, sem enjoar nunca. Sem saber do mundo lá fora que me espera, de tudo que eu estaria perdendo parada no mesmo ponto, só na companhia dos pássaros. Eu quero demais.
postado por: Maria Anita 1:44 PM
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Sábado, Julho 12, 2003
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"somethings never change... and some do"
Matrix Reloaded
Incrível como um único momento, uma única frase de quatro palavras, pode mudar para sempre seu jeito de ver as coisas. Pode abrir novos horizontes, inverter as cores. Incrível como as pessoas podem, sim, te surpreender, o tempo todo. Como cada um de nós é uma pequena e insondável caixinha de surpresas. E como é magnifico quando uma delas se abre para nós. Não fazia nem cinco dias que eu comentava com a Thallita que fazia tempo que ninguém me surpreendia, que todos estavamos tão os mesmos, que eu precisava postar sobre isso. Ainda bem que não postei, o mundo me provou errada poucas noites depois.
Agora olho para as pessoas com respeito novo, para uma em especial com orgulho renovado. Porque somos todos fantásticos e o que guardamos em nós pode ser para o outro um mundo totalmente novo.
Sim, a vida é um mistério, ela pode mudar de repente, sem nem um aviso. E continuar, estranhamente, a mesma.
postado por: Maria Anita 11:44 AM
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Quarta-feira, Julho 09, 2003
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Terça-feira, Julho 08, 2003
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"Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!"(Carlos Drummond de Andrade)
Me dei conta hoje. Tudo que quis, eu tenho. Não porque mereço, trabalhei por isso, suei e sofri, mas porque deram pra mim. Nunca tinha pensado assim antes, mas eu tenho sorte. Fui mimada, mal acostumada. Quis patins, violão, um computador, carro, celular... É seu. Uma calça, festa, relógio, discman...Seu. Bicicleta, tênis, passar no vestibular, lente de contato, caneta amarela... E pronto. Que vida besta. Não lutei por nada, tudo veio a mim. Eu, Rainha do meu próprio umbigo. Nunca estudei mais de seis horas para uma prova. Seguidas, meu Record foram quatro, talvez cinco. Desde que entrei na UFU. Antes, duas horas por prova, só em épocas de desespero.
Tive uma epifania Clarisseana. Minha sorte enche o saco. Tive bons pais, que protegeram sem coibir, cuidaram sem amarrar, educaram sem bater, explicaram sem mentir. Me fizeram sentir segura, me deram colo e uma parcimônia controlada. Tive um cúmplice mais que um irmão. Amigos que entenderam para discutir o sexo dos anjos e a origem de Adão. Cheguei à medicina indo ao cinema toda terça, fazendo pintura, entrando na Internet por horas. Ainda viajei. Eu quis mudar, mudei. Ainda assim quase todo final de semana estou em casa. Bioquímica me irrita. Os professores não prendem minha atenção dispersa, as matérias não atendem minha necessidade por diversão.
Eu me entedio, não suporto minha companhia. Então desenho ou escrevo. Ou converso ou leio. Estudar consegue ser mais entediante que eu. Me pergunto o que vai ser de mim quando o mundo me virar às costas. Quando eu quiser algo importante e ele não me der. E eu tiver que lutar...Como conseguirei com essas mãos frágeis que nada fizeram até hoje. O que farei com essa mente viajante? Essas pernas moles e lentas? Com meus olhos míopes? Eu preciso de ajuda, sou fraca, não me sustento sozinha.
Preciso de sorte, de pais, de amigos, irmão, cachorro, empregada. Preciso de um mundo cor de rosa. E quando ele se voltar contra mim? Vou cair e morrer, derrotada. Tenho medo de mim.
... Post conjunto com o Gabriel.
postado por: Maria Anita 9:49 PM
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Segunda-feira, Julho 07, 2003
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"Just have a little faith in me" Jonh Hiatt
Poucas coisas me magoam mais do que quando não acreditam em mim. De eu dizer que posso e duvidarem. Que eu consigo, que eu sei. Porque a primeira pessoa que aponta o dedo pra mim e diz: você não consegue, vai ficar errado, vai ficar ruim, sou eu. É a minha imagem que me acusa do espelho e sussurra uma lista sem fim de defeitos. De coisas que minhas mãos não sabem fazer, minhas pernas não conseguem suportar, minha mente não pode concluir. Sou eu que apesar disso levanto e encaro o dia. E se passei por isso e disse que Eu tenho certeza. Logo eu, que não tenho certeza de nada no mundo, o mínimo que peço é um pouco de confiança. Um pouco de fé. Se eu prometi, disse que chegava, que não contava pra ninguém, que entregava até amanhã, o que eu posso dizer? Confie em mim. Odeio quando me olham com cara de duvida, de não sei se você está falando a verdade. Só quero um pouco de boa vontade, da certeza de que mesmo que eu falhe, que esteja completamente errada, que, bom, eu fiz o que pude. E a maior parte do tempo eu não me esforço pra nada, e se um dia eu prometer que farei o meu melhor... tenha um pouco de fé em mim.
postado por: Maria Anita 11:58 AM
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Domingo, Julho 06, 2003
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Sábado, Julho 05, 2003
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Isso é a insanidade que eu chamo de vida ( Bruce Banner para o General Ross, em Autodestruição, confronto clássico escrito por Stan Lee)
Assisti Hulk hoje. O cinema vazio como nunca antes, além de mim, mais três almas perdidas na sala. Lembrei tanto dos anos passados, quando ainda lia gibis. Aliás, toda vez que vejo o filme de algum herói da Marvel, seja os X-men, O Demolidor ou o Homem Aranha, me lembro das horas que passei lendo sobre eles. De como era bom quando os gibis chegavam, aos montes, e eu podia escolher, descartar os piores. Como cada saga era como uma nova aventura, uma nova risada, um novo amor. O Gambit e a Vampira, Maverick e a Irene, Peter e a Mary Jane, Bruce e Betty. Como chorei quando Betty teve sua morte horrivel, quando expulsaram o Gambit, como eu torcia pelo Mathew e pela Viuva Negra apesar de tudo. Como passava horas discutindo o destino deles, quem era mais forte, a última do Magneto. Como o próximo mês parecia longo. Saudade do meus tempos de Marvel. Os filmes trazem tudo de volta, todas essas sensações boas, dos meus quinze anos. Toda a dramaticidade dos roteiristas ( Seja ele bom ou mal. Ou um pouco de ambos...ele não escapa dos anseios da alma...) ... o estranho humor do Peter ( ... O homem aranha, aquele que bate e nunca apanha...) ... As namoradas do Murdock ( Eu perdi a visão ainda criança, graças a uma boa ação. Depois eu me tormei 1) advogado durante o dia e 2) vigilante à noite. Das 9 às 5 meu nome é Matt Murdock. Depois disso eu sou o Demolidor. A moça é outra vigilante que eu conheço há tempo... Natasha Romanov, a Viúva Negra. Nós já namoramos. Urubu quando está de azar...)Recomendo para todos um pouco do mundo onde não importa quanto os vilões sejam fortes, as mocinhas morram, os hérois sofram... O bem sempre vence. E no próximo mês tem mais...
postado por: Maria Anita 6:13 PM
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Quarta-feira, Julho 02, 2003
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"I wanna fly, never come down,
And live my life,
And have friends around.
We never change, do we?" Coldplay
Tive minha festa, com direito a presente, Thallita, brigadeiro, João Paulo, truco, Gabriel, refrigerante, Lísia, pipoca, Luanda, pirulito. Recebi mais tefonemas, alguns especiais faltaram, uns inesperados não. Fazer dezenove não foi tão terrível assim, o número ainda soa pesado e estranho na minha boca. Não saí para dançar, comemorei dormindo, num sono bom e pesado que foi até as dez de hoje. Faltei aula, para variar não estudei para bioquímica. Estou deixando a vida correr. Mais um ano se passou e as coisas continuam as mesmas. A estagnação me irrita e protege. Sou o ponteiro eterno das horas. Sempre quis ser os segundos, rápidos, rápidos, rápidos. Mas passo devagar, sem mudanças. Os dezoito se foram e temo os dezenove. E se tudo mudar? E se não?
postado por: Maria Anita 8:50 PM
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Terça-feira, Julho 01, 2003
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Gabriel,
Você me mandou um e-mail, um tempo atrás, que eu ainda não respondi. Era sobre bilhetes, sobre como os blogs estavam substituindo nossa carência por aqueles pequenos papeizinhos que deixavam as aulas menos entediantes e a sala, infelizmente, boicotou. Também sinto falta deles, naquelas horas infinitas de bioquímica. De ter o que pensar, de ter com o que ocupar as mãos.
O dia começou bem, Lisinha me ligou e pos Beautiful para eu escutar. Era meia noite e eu estava com insônia de gripe. Meu corpo traidor não me deixava dormir, meu nariz não queria cumprir sua função e deixar o ar passar. Ficamos conversando uma meia hora, sobre a prova que tava chegando, cartas e 19 anos. Depois eu me senti melhor, tomei um banho, desisti de dormir, de estudar, de tudo. Fiquei escutando Hail to the thief. Nem fiquei triste. Aliás, não posso fazer nada sobre as músicas depressivas, quando você vê, já não pode viver sem elas.
Quando dormi eram mais de duas. Acordei com minha mãe telefonando pra dizer Parabéns. Tive um ataque de choro. Bem ridículo, eu comendo pão e chorando. Ridículo, como toda carta de amor. Melhorei, matei genética, estudei. Olhei o resumo que você fez pra mim de canais e correntes.
Fui pra prova. Ganhei abraço, cartinha, felicidades e parabéns. Ganhei uma boina vermelha linda da Vivien. Aquela que eu tava namorando fazia meses. Fiz prova, ganhei um ferro, apesar dos esforços de ontem. E você ainda me culpa, e a regra número três? Eu falo que o inominável é do mal, você que não acredita.
Almocei, ganhei um telefone simpaticíssimo da minha ex-sogra. Difícil acreditar que daquela criatura meiga saiu o Bruno.
A fila para Internet estava imensa e eu querendo ler seu post. Vim pra casa. Aproveito agora para responder. Os dias continuam outonais, parece que eles não desistem do cinza. Hoje o vento mascarou o sol, eu ganhei gripe e prova.
Mas boas coisas também vieram. Telefonemas redentores de madrugada, presentes, reminiscências.
Estava lembrando hoje do dia do debaixo da pia. Um dia faço um post sobre isso e você descobre tudo que disse. Nada muito comprometedor, eu garanto. E claro que eu filmei, você dançando com a Thallita, sozinho, e aquela conversa de nós três no escuro, com o Daniel dormindo no chão. Eu não podia perder, de jeito nenhum. Algumas oportunidades a gente não passa.
Meus dezenove anos chegam assustadores, mais cedo do que eu esperei. Parece um numero grande e pesado. Se eu pudesse, dormiria hoje o dia inteiro e esperava essa impressão passar. Só que tenho medo de perder alguma coisa enquanto durmo, afinal, um dia que está indo tão bem, contra todas as probabilidades, só pode melhorar.
Ainda não animei de sair para dançar. Estou mais para cama e Internet, ou um filme. Depois de prova eu só quero entrar em coma. Mas à tarde ainda é longa, e quem pode saber o que acontecerá?
E você tem razão, meu caro, apesar de todos os buracos na estrada, a viagem está sendo ótima. Mas o ano também está no meio, e quem sabe (de novo) o que virá? (Alias, típico de mim, na minha indecisão, nascer assim no meio do tempo).
E eu não, absolutamente nunca, quase te matei no transito. Isso é calúnia, não esqueça da regra numero 1, a áurea do Perigosas Peruas Clube: Está tudo sobre controle. E daí se era contra mão, se eu não vi a moto, e de onde apareceu aquele caminhão? Esta tudo sobre controle, sempre.
Obrigada também,
Até mais tarde.
Não vou assinar porque há muito perdemos esse costume vão.
Tenho que desejar todas as felicidades do mundo para a Luciane, a Thais e a Ana Paula, que além de dividirem comigo a sala, compartilham o mesmo dia de aniversario. Parabéns, queridas. Não é o melhor dia para nascer, mas a gente se vira com o que tem.
Espécie de post conjunto com o Gabriel
postado por: Maria Anita 1:56 PM
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