Sete Faces
Terça-feira, Setembro 30, 2003
"Look through my window to the street below
See the people hurryin' by
With someone to meet, some place to go
And I know I should let go"
the mammas and the pappas
Deixar para trás é o que há de mais dificil. Como esquecer um amigo? Bons momentos? Aquelas férias? O primeiro beijo? O ultimo?
Como esquecer certos sorrisos? Jogar fora aqueles bilhetes? Ragar aquelas cartas? Como queimar as fotos? Apagar os erros? Enterrar na memória o cheiro do mar?
Não sei deixar nada para trás. Eu carrego comigo. Ando pesada. Às vezes nem olho para trás, sigo em frente como se não me importasse. Tento acreditar que ficou mesmo no antes. Mas é mentira. Ainda estão em mim todos aqueles dar de mãos, aquelas tardes, os bolos de frutas que comi.
Ainda estão logo atrás de meus olhos as noites que dormi com minha mãe, as horas que passei com meu irmão, os jogos de baralho com meu pai. Ainda está comigo a risada de todos meus amigos. Meus primos. Meus.
Está comigo e não sei como fazer mais, porque parece que acumulo mais memória. Acumulo mais momentos. Mais companheiros de sina.
E depois, quando todos nos separmos, vou fingir deixa-los para trás também. E novamente, será mentira.
Estarão comigo.
E eu sei que tinha que seguir em frente, mas o passado me ancora da rebeldia do mar.
E a vida passa na janela.
Post conjunto com o Get me away
Maria Anita4:37 PM
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Segunda-feira, Setembro 29, 2003
"You know I'd do most anything you want
Everyday I, I try to give you everything you need
We'll always be there for you
I don't believe in many things
But in you I do" Simply red
Olhando para trás percebo que a culpa de tudo é do Simply Red. Nada disso teria acontecido se quando eu cheguei a rodoviaria nao estivesse passando For Your Babies. Existe algo naquela música que me faz achar que eu posso tudo.
Veja bem, estava chovendo. E a culpa foi da chuva também. Do medo do meu pai de motos. Da minha conta bancaria zerada Da fortuna que eu gastei com meu irmão.
Eu tinha vinte reais para gastar com taxi e nenhuma intenção de faze-lo. Pensei em pegar um Moto-taxi, me economizando 16 reais. Tudo bem, o que meu pai não sabe não vai mata-lo. O problema é que choveu. Depois de uma semana de calor infernal, justo quando preciso de um céu de brigadeiro...Chove.
E estava tão lindo, tão coisa de filme, eu na rodoviaria com 4 malas, numa liberdade enlatada, na chuva. Eu não queria, não podia gastar aqueles 20 reais. E ainda teve For Your Babies. Acabo de descer do onibus e a voz do Mick naquela calma toda, vinda da televisão, no show que eles fizeram em Brasilia. Podem falar o que quiser daquela música. Que é melosa(concordo), que é enjoativa (concordo também) mas ainda está nas minhas preferidas de todos os tempos.
Por isso resolvi pegar o onibus. Mataria minha mãe do coração me ver no atravessar a rodoviaria na chuva e pegar a ultima linha para o terminal central, só pra economizar um pouquinho. Mas, pensando agora, não foi pelo dinheiro.
Estava tão vazio. Tão solitário. E aquela chuva fina. E eu sentindo que nada de ruim nunca, nunca poderia me acontecer enquanto eu estivesse naquele onibus verde ridiculo. Sentada na companhia de quatro estranhos, carrendo mais sacolar do que mãos, com os oculos embaçados.
Era como se nada, nunca, pudesse me prender. Me impedir. Era a liberdade mesmo que tardia. Era aquele prazer puro de rodar a noite sem porque. De dirigir sozinha sem rumo. De escutar For your babies.
Quando cheguei ao terminal fui pegar o Marta Helena. Sentei no mesmo lugar em que tinha estado quase um ano atras, com a Thallita( bebada), conversando com os protestantes estrangeiros, numa noite igualmente boa. Sorri daquela lembrança oportuna. De nós sentadas no ponto de onibus, numa rua desconhecida, a noite, depois de deixar a Vivien em casa. Com a música do churrasco ainda vindo de longe.
Já era quase meia noite quando o 109 chegou. Desta vez era eu e um menino. Logo eu era a ultima passageira.
O cobrador perguntou para onde eu ia.
"Perto da delegacia"
"Perto da delegacia, Cleiton" Gritou para o motorista.
Depois veio uma longa explicação sobre como aquele onibus não ia para aqueles rumos, porque era a ultima volta e excepcionalmente ele parava nos bairros e ia para garagem.
Mas eles iam me deixar em casa mesmo assim.
Ainda chovia fino e o mundo estava lindo. E eu ali no onibus simbolico.
Um taxi não faria melhor, parei em frente ao portão, tive que andar três passos.
Nem me molhei.
Agradeci aos meu companheiros, me desculpei, desejei uma boa noite e subi as escadas cantando, apesar das quatro malas.
"I don't believe in many things..."
E foi assim que por culpa do Simply red eu fiz um onibus sair da rota e me levar pra casa.
Maria Anita10:32 AM
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Sábado, Setembro 27, 2003
"Writing is not necessarily something to be ashamed of, but do it in private and wash your hands afterwards."
Robert Heinlein
Muito já se falou do que é escrever. Do que representa na vida dos que gostam, dos que sabem, e dos que nem gostam ou sabem tanto assim. Escrever é como desenhar. Ajuda a passar o tempo, a fugir da realidade, a se expressar. Ajuda a alegrar os outros e a si. A entristecer os outros e a si.
Escrever é como adoecer. Como um pecado. É como ser bonito e pária. Escrever é ter a beleza de todos os filhos bastardos. É o modo de se explicar sem ter de olhar os olhos, sem suas mãos tremerem, sem dar a cara a tapa. Escrever é ser vidraça e saber que se quebrar, é só colar tudo junto de novo. Escrever tira a humanidade, tira o sangue das bochechas, tira o talento dos lábios.
Escrever é infinitamente bom e fácil. É só começar. Ninguém garante que ficará bom, que se tem talento, que tem poesia... Mas todo mundo devia fazer, entre uma folha e outra do caderno, num papel de propaganda. Fazer como se estivesse fazendo algo errado. Timidamente .
Escrever como se estivesse vivendo de novo, tendo outra chance. Reforçando sua personalidade. Fincando os pés na terra barrenta.
Tanto faz.
Maria Anita12:18 PM
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Sexta-feira, Setembro 26, 2003
"Writing is not necessarily something to be ashamed of, but do it in private and wash your hands afterwards."
Robert Heinlein
Maria Anita11:52 PM
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Quarta-feira, Setembro 24, 2003
"Walk on
Leave it behind
You`ve got to leave it behind" U2
Deixei pra trás o colorido de todos meus versos escritos. Deixei pra trás as minhas lágrimas e as lembranças da infância. Deixei o cheiro de maça e os livros de Lobato. Deixei meu coração, minha vida, meu quarto. Uns sonhos azuis. Umas palavras não ditas. Uns amores inconclusos. Deixei pra trás e não me arrependo. Foi o melhor a fazer, eu me lembro.
Maria Anita9:03 PM
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Terça-feira, Setembro 23, 2003
"Are you such a dreamer?
To put the world to rights?
I'll stay home forever
Where two & two always
makes up five" Radiohead
Confesso, tenho ligeiras tendencias a divagar. Fui daquelas alunas com as quais os professores vinham falar, perguntar se estava tudo bem. Ou simplesmente gritavam no meio da aula para eu calar a boca, por favor, prestar atenção, largar o lápis, olhar pra cara dele.
Eu podia passar a tarde sem fazer nada entretida comigo mesma. A realidade costumava me irritar e era fácil, muito fácil fugir dela. Sempre fui da teoria Ignore que um dia passa.
O que eu descobri do jeito dificil é que nem sempre passa. E nem sempre ficar em casa no canto e lamber as feridas como um animalzinho é a melhor solução.
Os professores ainda gritam comigo e me mandam prestar atenção, meu caderno ainda está cheio de desenhos estúpidos, e já arquivei isso nos arquivos dO Que Nunca Muda.
Mas minhas feridas estão muito mais expostas e ultimamente passei a não ligar. O mundo está melhor.
E, apesar dos pesares, 2 e 2 estão mais 4 do que nunca antes.
Os mundos que criei pra mim ainda estão lá, para as horas vagas. Os lugares onde os 5 eram possiveis e mesas podiam voar.
Só que menos necessarios. Menos divertidos. Menos.
POst ConJunto com o GeT me aWay
Maria Anita10:24 AM
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Segunda-feira, Setembro 22, 2003
"E ela sempre queria mais, e pedia por mais, e precisava de mais, mais, mais, mais... Terminou por ficar com o preto, a ausência... " Ieda Marcondes_Fabulosa e Inútil é a descoberta desse final de semana. Ótimo blog.
Que lugar estranho esse que estou. Deitada numa cama alta e colorida. É a colcha. Dessas grandes e macias. Infantis, de certa forma. Uma tentativa materna de que você nunca cresça, talvez, e ainda assim a sua cara. Vejo nas paredes nuas e amarelecidas tudo que devia estar lá. Os posteres, as fotos, aquele quadro triste que pintei a tanto tempo.
Até o Chaplin se mudou para o guarda roupa, com sua expressão eternamente desconsolada. Com o garoto do titulo do lado, distante e ainda assim...
As venezianas filtram a luz e espero Parasito chegar. Com a professora que parece cada dia mais a Sibila Trelawey.
As paredes nuas são as mais irritantes. Só o espelho pendurado numa acusação muda de Mais e de Nada.
Maria Anita12:55 PM
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Sexta-feira, Setembro 19, 2003
Hoje estou tão decadente.
Pintei minhas unhas num vermelho vivo, cru. Propositalmente mal acabadas, roidas, feias, poéticas.
Vesti uma camiseta longa e velha, com um desenho do Mickey, manchas de caju e um buraco do lado.
Desarrumei meu cabelo ainda mais. Coloquei pilhas num carrinho de controle remoto antigo e fiquei jogando ele contra parede.
Liguei o ventilador, comi bombom.
Quis fumar, com uma daquelas piteiras antigas, de preferencia roxa. Mas eu não fumo, alguém poderia argumentar... mesmo assim, pelo bem do personagem.
Quis colocar uma maquiagem pesada e chorar. Mas não estava triste e nem com paciencia para descobrir o segredo das sombras, rimeis e toda parafernália feminima.
Hoje eu estava tão Freudiana. Tão Moulin Rouge. Hoje eu quis escrever poesias em letras indecifraveis, marcar o papel (daqueles com cheiro de morango) com a forma dos meus lábios.
Hoje eu quis ser alguém totalmente diferente de mim. Quis sofrer por um amor impossivel. Ter uma doença incuravel. Um medo irreprimivel. Hoje quis ter pesadelos horriveis e acordar suada e chorando.
Hoje eu quis ser novela. Arrumei meu cabelo num coque bem no alto.Tirei a camiseta idiota. Vesti uma roupa seria. Andei pela casa de salto.
Quis ter um armario cheio de remedios perigosos. Quis pensar em toma-los, a todos, um por um.
Quis ser louca. Varrida. Esquizofrenica.
Quis beber uisque e ter sete amantes. Um dono do circo, outro bailarino, um politico, um ladrão, um massagista, outro escritor e um gigolo.
Quis ser casada, ter três filhos gemeos e ser infeliz. Quis ser dona de casa insatisfeita. Operaria grevista. Reporter da Discovery Channel.
Quis ser uma daquelas mulheres misteriosas de chapéu, que entram nas salas dos detetives particulares nos anos 30.
Quis ser tudo menos eu.
Hoje o Sete Faces faz quatro meses de fuga de mim.
Maria Anita10:17 PM
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Quinta-feira, Setembro 18, 2003
"I don't care if it hurts
I want to have control
I want a perfect body
I want a perfect soul" Radiohead
Decidi que este não seria um post triste. Decidi que esse dia seria bom. Que eu acordaria tarde. Tomaria café com queijo e farinha, a moda da minha avó. Decidi que entraria na piscina e espantaria o calor. Que iria até a loja de conveniencias na esquina, compraria um Magnum Preguiça, uma balinha que pipoca na boca e locaria um filme. Decidi que lavaria meu cabelo, colocaria uma camisa branca bem longa e fresca, imploraria para Chida por pipoca (porque a gente somos inútil e não sei fazer), tomaria Frisco de limão, poria os pés para cima e passaria horas na cama. Decidi a não atender telefone. A brincar de bola com a minha cadela. A dançar Twist and Shout. Decidi que a vida é boa. Que eu sou dona das minhas horas. Que o espelho pode ser legal. Que a Veja é uma droga de revista.
Eu decidi que não importa que doa. Que não me importo com as agulhas se valer a pena. Não me importo com as lágrimas se o sorriso depois for maior. Não importo que o sol dê cancer. Aliás, até esqueci que odeio sol sem praia.
Decidi que tem coisas que valem a pena a vergonha. Pessoas desconhecidas para quem vale a pena ligar. Decidi que o risco compensa a escuridão e que as estrelas são lindas as duas da manhã. Decidi que meu dinheiro era pouco e fui ao sebo mesmo assim. Segurei na mão os livros como se fossem filhos. Os DVDs, os discos antigos. Sentei no chão, li gibis da época em que o uniforme dos X men era amarelo.
Decidi vestir vermelho, levar minha tia no cinema, dar uma cambalhota. Decidi jogar comida para os peixes e para os patos no Bosque dos Buritis.
Decidi que posso decidir, mesmo que as escolhas deixadas para lá me doam como dedos invasivos em minhas costelas frágeis.
Maria Anita7:18 PM
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Quarta-feira, Setembro 17, 2003
Onde anda você
(Vinicius de Moraes)
E por falar em saudade, onde anda você
Onde andam seus olhos que agente não vê
Onde anda esse corpo que me deixou morto de tanto prazer
E por falar em beleza onde anda a canção
Que se ouvia nas noites dos bares de então
Onde agente ficava, onde a gente se amava em total solidão
Hoje eu saio na noite vazia, numa boemia sem razão de ser
Na rotina dos bares, que apesar dos pesares me trazem você
E por falar em paixão, em razão de viver
Você bem que podia me aparecer nestes mesmos lugares
Na noite, nos bares, onde anda você.
Obrigada, meninos, amo vocês também.
Maria Anita1:57 PM
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Terça-feira, Setembro 16, 2003
"When I grow up
I'll be stable
When I grow up
I'll turn the tables " Garbage
Sempre achei que quando eu crescesse tudo ia mudar. Tudo seria diferente. Sempre achei que a maioridade levaria embora esse meu ar estúpido. Mas tudo continua tão o mesmo. Ainda ando com os mesmos passos tropegos, os ombros pra frente, os braços num movimento sincronico, com os calcanhares arrastando no chão. Ainda não tenho nenhuma postura, sento em qualquer cadeira, chão, escada como se a caminhada tivesse sido ardua. Jogo as pernas na posição mais confortavel e em menos de cinco minutos já estou quase completamente deitada no banco. Meu cabelo continua sem jeito, meus olhos miopes, minhas roupas largas e meus tenis sujos.
Ainda como chocolate como se a vida dependesse disso. E bala, sorvete, torta, pão de queijo. Ainda jogo Donkey Kong e Super Mário se a companhia for agradavel. Vejo filme da disney. Sou relapsa com as minhas coisas, com meu sono, com minhas provas. Ainda não estudo, não trabalho, não arrumo a cama.
Ainda esqueço o carro aberto, de fechar a janela e levar o guarda chuva.
Meu siso começou a nascer. Não me sinto muito preparada para eles.
Talvez quando eu conseguir parar quieta numa cadeira e escutar um professor chato falar 2 horas, sem divagar. Talvez quando eu não ficar desenhado besteiras nas páginas do caderno. Talvez quando uma pessoa doente e esperançosa vier parar nas minhas mãos.
Talvez quando eu crescer as coisas mudem.
Post Conjunto com o Get me away
Maria Anita1:20 PM
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Segunda-feira, Setembro 15, 2003
"Dizem que sou louco por pensar assim,
que sou muito louco, mas louco é quem me diz
que não é feliz. Eu sou feliz."Caetano Veloso
Hoje voltando para casa, depois da chuva, as ruas molhadas, uma enxurrada suave molhando as barras da minha calça, lembrei do Cigarrinho. Cigarrinho foi um dos loucos da minha infância, rezava a lenda que ele tinha ficado louco de tanto estudar.
Era um daqueles tipos magros, altos, moreno, meio índio, tinha passos desajeitados e eu nunca soube seu nome verdadeiro ou conheci sua família. A única coisa que sabíamos de Cigarrinhos é que ele vagava as ruas do Celina Park atrás de tocos de cigarro que jogavam no chão. Levava-os a boca num desespero trôpego, não importava quão imundo estivessem.
Éramos crianças, não dávamos muita bola para ele. Mas era figura constante e querida. As mães o deixavam segurar seus bebês e os cachorros não implicavam com ele. Um dia simplesmente sumiu. Fiquei sabendo que tinha sido internado.
Outro dia, num desses finais de semana em que voltei pra casa, vi o Cigarrinho. Os mesmos braços longos, a mesma magreza amarela, o mesmo toco de cigarro na boca. Algumas rugas a mais, apenas. Essencialmente o mesmo.
Cigarrinho estava igual, congelado criança pra sempre.
Maria Anita9:08 PM
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Sábado, Setembro 13, 2003
"Its not a cry you can hear at night
Its not somebody who's seen the light
Its a cold and its a broken hallelujah" Rufus Wainwright
William foi um dos episódios mais tristes que vi. Mais do que quando nos apresentaram a odiosa Diana Fowley. Mais do que Réquiem. Mais do que This is not happening. William foi até mais triste do que Jump to the shark, e pra alguma coisa ser mais triste do que a morte dos Pistoleiros teve que haver muito esforço.
William foi triste por causa da estupidez da coisa toda e da música do final. Aquele Aleluia estava me matando. Fiquei tão mal que nem chorei na hora. Chorei depois. Toda vez que escuto a música me vem uma tristeza imensa. Me vem aquela sensação de que estamos irremediavelmente sozinhos, de que Deus não existe e não há esperança para os homens.
Ainda não cheguei a nenhuma conclusão sobre nenhuma dessas questões, mas quando escuto essa música me lembro de tudo que deu errado. De tudo que aconteceu e eu queria mudar.
Me lembro daquele episodio horrivel em que tudo dá realmente errado.
E só consigo ficar deprimida, porque nem coisas tão bonitas quanto aquele Aleluia quebrado podem ser alegres.
Maria Anita9:18 PM
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Sexta-feira, Setembro 12, 2003
Ó Anita!
Bendita sejas entre as benditas,
Que mal pergunte:
Quando fores doutora diplomada
e meu corpo inerte e rígido for parar
nas tuas mãos, poderias não
me despentear os cabelos nem me
abrir pelo meio? Posso partir sem
receio? Caso contrário, não entro nessa não.
(Carlos D. Jr.)
Recebi por email hoje. Gostei. Não creio que abrirei ninguém em um futuro próximo ou distante...
Mas a vida dá voltas.
Maria Anita12:36 PM
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Quarta-feira, Setembro 10, 2003
"Favor não levar para o cemitério o balde" Lixo da Sala de Autópsias de UFU
Eu queria ver a Autópsia. Eu queria desde que tinha 13 anos e assisti Arquivo X pela primeira vez. Eu queria ver a estranheza de nossos órgãos internos e a violação de nossos ossos. Eu, a Vivien e o Gabriel saímos da patologia depois de uma hora vendo laminas e aproveitamos para dar uma passadinha no IML, ver se tinha alguma coisa. Um moço simpático disse "Daqui a 10 minutos" Entramos. Estava uma penumbra morbida. Haviam dois corpos cobertos e percebia-se, de um deles, os pés femininos com as unhas pintadas de prata.
É uma mulher, comentei. Eu e o Gabriel tiramos par ou impar para ver que tiraria o lençol que revelaria seu rosto. Ganhei e ele ficou com o trabalho. Era uma mulher velha, com queixo protruso e cabelos um pouco brancos. Ela tinha cicatrizes abaixo dos seios, manchas arroxeadas que só vem com a morte. Ela parecia um boneca de plástico dormindo.
O legista chegou, chama-se Edson. Colocou a roupa e começou a explicar como as coisas eram. Do Rigor mortis, das manchas... As articulações dela fizeram barulho como se quebrassem quando ele as moveu. Deu uma sensação estranha e indefinida. O barulho dos mortos. A Vivien ficou pálida e saiu para comer algo. Sua pressão tinha caído.
O Edson pegou o bisturi e partiu seu couro cabeludo. Bem no meio, separando a carne, puxando para frente até que descolasse dos ossos. Novamente uma estranheza macabra quando ele puxou a pele para cima do rosto como se fosse uma mascara. Uma mascara de gente, de sangue, de cabelo. Depois pegou uma serra e partiu o cranio. O cerebro escorreu pelos seus dedos como um pudim amolecido. O sangue pingou na mesa. As meninges mantiveram-se orgulhosas.
A Vivien voltou e chegou um cara do 12 periodo. Haroldo, como o tigre do Calvin.
Depois o Edson fez um grande corte desde a incisão clavicular até o púbis, quase. Cheirou a visceras. A carne. A sangue. A fezes. Cheirou ao que somos nós por dentro. Ligeiramente podres. Belos. Mostrou doze costelas dela quebradas. Os médicos haviam quebrado enquanto faziam a massagem cardiaca. Mostrou seus pulmões limpos, seu coração infartado, seu pancreas, baço, rins.
Ela era rosada, colorida.
Chegou um médico fumando. Começei a embrulhar o estomago. Aquele cheiro horrivel de fumaça, de sangue, de mortos. Falei que ia me sentar. Sentei. Senti meus membros pesados, minha pele fria, minhas vistas ficaram nubladas. O médico fumante foi embora. Decidi sair dali, dar uma voltinha. Levantei, os passos tropegos. Segui, em suposta linha reta até a porta... Daí em diante só me lembro de estar no chão, deitada, o Haroldo levantando minhas pernas. A Vivien me oferecendo uma bala do alto e o Gabriel olhando pra mim.
Aceitei a bala, fiquei deitada um tempo olhando os três em suas alturas supinas. Eu ri, quis saber da autopsia que estava perdendo. Nunca tinha desmaiado antes. Falaram para eu não levantar. Teimei. Logo estava na cadeira de novo. As vistas negras.
Voltei para o chão, esperei passar.
Chegou outro corpo. Um cara que tinha se suicidado. Havia marcas de corda em seu pescoço. Quis ve-lo, me levantei, melhor. A Vivien mandou eu ir deitar de novo. Fui.
Quando melhorei ficamos rindo da minha queda. Fiquei sabando como foi. Como tinha feito uma hiperbole até a mesa, como quase desabei no chão se não tivesse sido pelo Gabriel. Ele que me segurou enquanto eu estava em declinio.
Terminamos de ver a autopsia da D. Laura, estava na hora do almoço. Nos despedimos, agradecemos e fomos comer. Rimos mais de minhas pernas bambas, de como acordei no chão sem memoria de como viera parar ali.
Metade da comida ficou no prato e ainda estou meio fria, mas não trocaria a experiencia por nada. A sala era estéril e fria. Os procedimentos um tanto bruscos. Os sentimentos meio desalmados. Mas erámos todos ali em D. Laura, que tinha morrido de AVC e tinha tido as costelas quebradas enquanto tentavam salvar sua vida.
Temos que repetir. Que voltar lá e descobrir os segredos do suicida, do assassinado, do que morreu de pneumonia. Tão humanos, tão frágeis.
Quem sabe desta vez eu não desmaie.
Maria Anita1:47 PM
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Terça-feira, Setembro 09, 2003
10 conselhos de mim para mim mesma:
10- Se o Bush for reeleito mude de mundo. Pense em Marte com carinho.
9- Leia menos. Veja menos filmes. Vá a menos shows. Volte menos pra casa. Estude mais. A vida não é a Neverland em que você vive.
8- Obedeça as regras que você fez pra si.
7-Ligue mais para os seus amigos, arranje tempo para escrever aquela carta e não esqueça do aniversário de ninguém.
6- Acorde pensando que a vida é boa. Esqueça a frase Só mais um pouco.
5- Ganhe dinheiro.
4- Não cometa multas.
3- Sorria e chore menos. Pratique um pouco de contenção.
2- Use filtro solar, coma verduras, faça exercicios, abandone o sonho de valsa e o refrigerante. Parece impossivel mas não é.
1- Aceite suas limitações. Seu macarrão nunca vai ficar gostoso.
Post conjunto com o Gabriel
Maria Anita12:53 PM
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Sábado, Setembro 06, 2003
Hoje não vou citar ninguém. Até poderia, sabe? Hoje foi um dia que merecia citações. Mas não começarei assim.
Primeiro vim dar recados.
Atualizei o blog pra Thallita, tem alguns erros, faltou italico, mas meu computador não quer cooperar.
Postei no blog do Gabriel, sim, meu primeiro post fora do Sete Faces... Talmbém tem erros e faltou links mas o Lesma está do Mal hoje.
O Jota finalmente arrumou um blog pra ele, os Incas Venuzianos, por ele e o irmão, Bruno. Confiram. Eles merecem.
Comprei 6 livros no Carrefour, o que quase salvou meu dia horrivel.
Quase.
E quando tudo poderia dar tão certo, alguma coisa sempre vem e estraga.
A vida podia acordar mais vezes de bom humor.
Maria Anita7:07 PM
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Quinta-feira, Setembro 04, 2003
"Pirata 1: Pegue o que puder...
Pirata 2:... e não devolva nada"
Piratas do caribe, a maldição do Pérola Negra
Quero ser Pirata, pilhar, enganar, beber e deixar pra trás. Quero ser pirata, pegar um navio de velas vermelhas e cortar os oceanos. Todos os oceanos. Quero conhecer a menor variação das mares, saber me guiar pelas estrelas e deixar um marinheiro em cada país. Quero correr perigo e ter mais cicatrizes do que dedos. Quero segurar o mastro e arrumar as velas. Ter uma tripulação quase fiel e amigos quase normais. Meu navio terá nome de homem e não será como um filho, mas um companheiro. Terá um nome russo ou alemão, algo complicado e imponente. Quero ser pirata e morrer cedo. Contarão historias clandestinas dos tesouros que roubei. Dirão que voltarei, que não morri de verdade, que minha alma assombra os mares, as ilhas, os portos. Quero ser pirata, sem gloria ou higiene, sem lei ou família. Sem moral e sem costumes e sem destino. Quero ser pirata só porque não posso. Porque onde nasci o mar mais próximo está a mais de 1000 km e a maresia que conheço vem do balanço enjoativo do ônibus.
Maria Anita10:19 PM
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Terça-feira, Setembro 02, 2003
"Recordo ainda...e nada mais me importa
Aqueles dias de uma luz tão mansa"
Mario Quintana
O passado me atormenta. Me prende. Me seduz. O passado é meu maior pecado. O passado sempre é melhor. Até os tempos difíceis. Até as madrugadas insones, as tosses, o cabelo que nunca foi certo. Até as solidões de tardes televisivas, as aulas de informática da sétima e o terrível ano 13.
O passado é bom. O passado não dói, doeu. Minhas histórias preferidas são aquelas em que o personagem perde a memória e pode começar tudo de novo. Porque não ter passado é como nascer de novo. Se eu não tivesse antes, seria outra pessoa. Apagaria de mim muitos defeitos, muito do que sei fazer, do que tenho medo, do que me da alegria.
Eu queria perder a memória e poder recomeçar.
Eu queria saber mudar e não olhar pra trás. Eu queria seguir em frente sempre.
Mas eu me viro. Olho longamente, relembro. Desejo ir contra a evolução e retroceder.
O passado me puxa mas desejo o futuro como nunca quis nada da vida. Quero continuar. Sempre quis.
Memórias traidoras não me deixam em paz, porém.
Post Conjunto... Versão do Gabriel aqui
Maria Anita12:19 PM
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