Sete Faces



Terça-feira, Novembro 25, 2003


"And I think everything is going to be all right no matter what we do tonight"
Aerosmith


Ando com terriveis tendencias fatalistas.

Hoje quero acreditar, só porque estou com vontade, sem nenhuma base teorica, sem pensar muito no assunto... quero acreditar que o futuro não está nas minhas mãos.

Quero acreditar que tudo vai ficar bem não importa o que eu faça.

Quero acreditar que minhas ações fazem parte de uma realidade afastada de mim.

Quero acreditar que posso andar na chuva e manter as meias secas.

Que a professora de micro logo será uma mancha negra e disforme no meu passado.

Que o dinheiro se multiplicará na minha conta.

Que chocolate não fará a equação calça/traseiro desproporcional.

Hoje, tudo está escrito nas linhas da minha mão. No formato do meu rosto. Na conjunção de marte com saturno.

Hoje nada depende de mim. Tudo que eu fizer hoje não tem conseqüências que já estavam planejadas para acontecer.

Hoje a noite é carta branca. Café com leite.

Uma criança.

Só porque eu quero acreditar.

Post conjunto com o GET ME AWAY

Maria Anita5:34 PM Comments:
Segunda-feira, Novembro 24, 2003


Estou com vontade de escrever algo bonito.
Não meramente lindo ou legal.
Não lindo como o Brad Pitt ou a Julia Roberts. Nem como o Rodrigo Santoro.
Algo bonito como as mãos da minha mãe. E todas as marcas e vincos.
Bonito como os olhos do meu pai.
A Kissa quando morde meu cabelo.
Bonito como a Emily querendo sair.
Bonito como o Matheus em um de seus olhares cumplices.
Como a Chida prendendo todos os bobs.
Preciso escrever algo bonito na essencia. Bonito só por existir.
Bonito como a Thallita quando ri.
Como o Gabriel fazendo o Primo Itchi.
Bonito como o Jota com o violão.
O Bruno com os livros.
Bonito como a Luciana ajeitando a saia.
A Vivien dando uns pulinhos quando está animada.
Bonito como a Lisia escrevendo hihihi.
Absolutamente bonito mesmo.
Bonito como a modestia dos emails da Mary.
Como um feedback positivo.
Bonito como o dia quando nasce.
Não preciso de mais nada lindo. Ou grande.
Nada de pretensões.
Preciso escrever algo bonito e ponto.
Algo que quando fosse lido não pudesse ser descrito de nenhuma outra forma.
Que dissessem com unanimidade: Ficou bonito.
Como a 59 quando se junta.
A Danila quando diz oi.
Como o cabelo do Murilo.
A Luciana e o Zé Neto brigando.
Preciso escrever algo bonito assim.
Só não sei como...
Como por em palavras tão limitadas a beleza do Giu quando fica vermelho?
Do André vencendo a timidez?
Do Rafa no teclado?
Como ver mais além do que é lindo?
Porque o lindo é tão simples.
Lindo é a minha madrinha quando se arruma.
Bonito é quando ela está de camiseta furada passando a mão no meu cabelo.
Do lindo a gente tira foto e olha no rua.
O bonito está além de mim.


Maria Anita12:44 PM Comments:
Terça-feira, Novembro 18, 2003


"Não se profana impunemente ao tempo a substancia que só ele pode empregar nas transformações, não lança contra ele o desafio quem não receba de volta o golpe implacável do seu castigo" Raduan Nassar

Nunca quis crescer. Sempre tive aquela noção de tempo estático. Sempre quis ficar perdida na realidade cassete. Como se minha vida fosse um filme e eu possuisse nas mãos o controle remoto.

Tudo seria bom e perfeito se quando você ficasse ansioso pudesse apertar o Fast Foward. Se pudesse rebobinar tudo para aqueles dias de férias, aquele abraço. Se você pudesse apertar o Slow Motion quando tudo parece andar mais rápido que você.

Sempre quis ter o controle da minha vida.

Mandar no tempo.

Ser criança até cansar. Queria poder girar a ampulheta das horas a meu favor. Queria que o tempo não passasse tão ridiculamente rápido.

Queria que já não fosse novembro. Ou que fosse dezembro logo.

Mas o tempo me obedece menos que a minha cadela... E isso é dizer alguma coisa.

O tempo é invariavel. Segundo após segundo. Se andarmos nos limites da velocidade da luz ele não muda nunca.

Mesmo.

Post conjunto com o GET ME AWAY

Maria Anita1:08 PM Comments:
Domingo, Novembro 16, 2003


Nas paredes da minha casa existem meus quadros e meus mortos.
São todas brancas.
Elas não se bastam.
Tem o relógio que toca as horas como se fossem ultimas.
O relógio bonito que assustou todos os meus primos e a iracema.
Tem o palhaço triste. O palhaço que fez o eduardo chorar.
O palhaço que caiu lá de cima e quebrou a perna e que, tadinho, não vai machucar ninguém.
A borboleta. A casa na fazenda. O mar com os barquinhos. As flores.
Eu pintei a óleo e uma solidão só minha.
São todos feios, fracos e sem talento.
Servem mesmo só para tirar a brancura das paredes.
O cinza das portas.
Tem os mortos.
Minhas avós sorrindo.
Vovô João.
Tia Ilinha.
Meu outro avô que perdeu para a próstata.
Que foi corrompido pela insanidade e pelo cancêr.
Os levados pela anemia, pelo coração cheio de gordura. Pela fraqueza de ser gente.
As fotos também estão lá.
Lembrando a todos nós dos que foram embora e nunca voltam, nunca.
Nas paredes da minha casa estão todas as minhas tristezas.
Os pedreiros tiraram as infiltrações, as marcas de pés, os pequenas rachaduras.
Tudo continua lá em sua esterilidade.
Na sua crueza.
Ainda são grandes, protetoras, confortáveis.
Ainda são belas e fortes e minhas.
Ainda guardam meus quadros e meus mortos.
E aquela tristeza que é minha.

Maria Anita2:55 PM Comments:
Sábado, Novembro 15, 2003


" Não me lembro desde quando sinto que meu coração e meu corpo estão pouco a pouco se separando, cada vez que acontecia algo triste ou dificil eu dizia para mim mesmo que aquilo não era comigo. Parece que há um outro eu olhando os acontecimentos ao meu redor. Tudo bem. Sei que posso continuar assim, vou guardar meu coração no lugar mais oculto do meu corpo. A dor do meu corpo... A dor do meu coração... Até mesmo o medo... Assim, não precisarei sentir mais nada" Shinji Ikari

Acho que me resume bem.

Maria Anita1:32 PM Comments:
Quinta-feira, Novembro 13, 2003


"São assinaladas com acento agudo as palavras oxítonas que terminam em a, e e o abertos, e com acento circunflexo as que terminam em e e o fechados, seguidos ou não de s: " Nossa Lingua Portuguesa

Odeio acentos.

Eles são coisinhas sem porque que nasceram de pessoas frustradas que não tinham mais nada pra fazer.

Já foi escrito (Lobato? Drummond? Gullar?) que a crase não foi feita para humilhar ninguém.

Discordo. Os acentos são elitistas. Burros. Inúteis.

Nunca fiz muita questão de acentuar nada. Quando lembro. Quando estou com paciencia. Quando dá vontade. A palavra vem escrita certa. Quando não, vem sem acento mesmo.

Não ligo nem um pouco.

Não ligue também.

Eu sei que arvore tem acento. E onibus.

E daí? Não quer dizer que eu vou coloca-los toda vez que escrever.

Por isso perdoem-me por minha indelicadeza.

As palavras vão nuas mesmo.

Maria Anita1:00 PM Comments:
Quarta-feira, Novembro 12, 2003


"A verdade. O que será? Qual será a verdade para mim? Tudo parece escorregar entre meus dedos, como se fosse areia. Afinal, o que será que vai sobrar em minhas mãos? O que será?"

Shinji Ikari, Evangelion.

Maria Anita6:35 PM Comments:
Terça-feira, Novembro 11, 2003


"I...I...But I`m still alive"
Pearl Jam

Corre sangue dentro de mim. Sangue vermelho e quente. Corre e pulsa e invade tecidos. Meu coração é infinito e perfeito, bate 82 vezes em um minuto.

As pessoas se destroem e se machucam. Os carros se enrolam em si mesmos. Mulheres são violentadas todos os dias. E violentadas. E violentadas. As crianças se fecham em bolhas de concreto e morrem asfixiadas por excesso de amor. Por falta de cuidado. Por fome.

As arvores crescem indiferentes. As baratas se multiplicam com velocidade assustadora. A mente humana diminui e diminui e todo sofrimento parece eterno.

As pessoas continuam morrendo ou pensando em morrer. Os pés continuam grossos e rachados, negros e tristes. Todos inventam jogos estúpidos para matar o tempo, brincam de roleta russa, do jogo do copo, de bater e olhar a janela como se pular fosse uma opção valida.

O tempo é louco e a gravidade infalível. O amor morre e descasca como a pele das mãos. Meu passado se mancha lentamente e tudo que tento esquecer volta para mim.

O calor apodrece nossa carne fraca. Ninguém nunca entende nada. Tudo vai se acabar mais rápido do que qualquer um possa dizer apocalipse.

Mas eu continuo viva. E cada batida do coração contra as costelas é um milagre próprio. Cada respirar sem dor. Cada sorriso sincero.

Cada beijo. Cada orgasmo. Cada quadro. Cada escultura. Cada lagrima.

Cada hemacea que nasce e morre. Cada pedaço de céu. Cada mosquito palha.

Eu ainda estou viva. E concordando com minha avó, 90 anos me parecem cada dia mais insuficientes.

Versão Gabriel AQUI

Maria Anita12:07 AM Comments:
Segunda-feira, Novembro 10, 2003


"O "Corredor Polonês" região da cidade de Dantzig foi criado no fim da Primeira Grande Guerra Mundial (1918) fazendo com que a Polônia conseguisse uma saída para o mar. Durante a invasão da Polônia pela Alemanha em 1939, os Poloneses foram encurralados como um "sanduíche" pelos alemães, ou seja alemães dos dois lados atirando e os poloneses no meio. O significado brutal da expressão só foi conhecida em 1939 durante a Guerra-Relâmpago de Hitler."
(Bokadoinferno)

Na quarta série os meninos fechavam a saída para cantina e para o banheiro fazendo um corredor polonês. Qualquer um que passasse era votado. Eles gritavam as notas como se fossem Deus.

Não importava quão grande era minha vontade de ir ao banheiro, eu nunca, absolutamente nunca, passava dentro do corredor polonês.

Achava aquilo o cumulo da falta de respeito pela dignidade alheia.

Achava que não havia humilhação maior.

Mas eu tinha dez anos, não sabia de nada ainda.

Nada.




Maria Anita1:05 AM Comments:
Quinta-feira, Novembro 06, 2003


Eram as regras clássicas.

Aquelas em cima das quais todo um código social era estruturado.

Permitia que se justificasse coisas que você não tinha nenhuma intenção de justificar.

E melhor, te dava razão.

Vinham sendo moldadas há gerações, e por enquanto, se resumem em quatro.

Espalhem.

1) Negue, negue sempre.


Sempre se pode contar com a valoroza regra número um. A regra áurea. Não importa o que você fez, com que você foi pego,
onde foi visto. Não importa se a testemunha é idonea, se eles tem fotos, se as provas são incontestáveis. Não importa se a verdade está te mordendo o nariz. Negue, negue sempre.

2)Obedeça a lei do menor esforço.


Para que fazer hoje se você pode não fazer nunca? ou também o melhor caminho é o menor.

3) A culpa nunca é sua.

Esconda as armas, tire o sangue das mãos, a marca de batom do colarinho. Durma tranquilo. A culpa nunca é sua. Diga calmamente Regra número 3 para qualquer um que ousar dizer o contrário. E acredite, eles ousam.

4) Culpe sempre quem está do lado.


A regra número três, percebemos, não se sustentava sozinha. Não adiantava só você não ser o culpado, precisava ser alguém. Quem está do lado serve.

Todos os seguidores dessas regras boas, decentes e cristãs tem levado uma vida feliz. Tenho notícias de fiés satisfeitos na Romenia e no Paraguai.

Adote também.


Maria Anita11:40 AM Comments:
Terça-feira, Novembro 04, 2003


"Tudo está perdido mas existem possibilidades" Legião Urbana

Tudo está mesmo perdido e as estrelas começaram a cair.

Outra prova de patologia se aproxima e as ultimas duas notas continuam bombasticas.

A pessoas continuam desaparecendo. Quebrando-se.

Eu me preocupo em silêncio.

É como estar em um labirinto. Como ser Alice. Os caminhos estão a minha frente mas não sei para onde ir.

Eu sei que existem possibilidades, mas... O que escolher? O que dizer?

Às vezes acho que apesar de todos nossos planos bons para o futuro, as viagens que pensamos em fazer e nunca saem do papel, o dinheiro que planejamos ganhar e não chega nunca, os meninos que pensamos ficar, os filmes que queremos ver de preto.

Apesar das férias de 3 meses que se aproximam. Da praia. Do sol.

Tudo é tão distante. Tão no futuro.

O que vem mais rápido, na velocidade de um OVNI, é a prova sobre Interferon Gama, Tuberculose Miliar e Inflamação aguda exsudativa purulenta.

As possibilidades parecem estradas cheias de pedras.

Post conjunto com o Get me away

Maria Anita1:02 PM Comments:
Segunda-feira, Novembro 03, 2003


"One, two... Freddy comes for you" * Canção do Krueger

Tive um pesadelo. Pensei que havia superado essa fase. Pensei que a época de acordar assustada e triste havia passado. Houve um tempo em que era rara a noite que eu não sonhasse algo ruim.

Sangue. Pessoas que invadiam minha casa. Perseguições Hollywoodianas sem final feliz.

Já sonhei que caia. Que estava perdida. Que todo mundo estava morto. Sonhei com traições. Com um mundo desconhecido.

E passou. Os pesadelos foram embora como vieram. Parei de sonhar, com coisas boas e ruins. Só que hoje... hoje tive outro pesadelo, como antes.

Aquele tipo de pesadelo claustrofobico, onde ninguém morre, ninguém mata e você está preso numa situação dolorosa e insustentável. Onde não adianta fugir. Não adianta ficar. Não adianta nada.

Quero parar de sonhar de novo.

* `Um, dois... Freddy vem pegar você'


Maria Anita10:19 PM Comments:
Domingo, Novembro 02, 2003


"Noite molhada de chuva,
Sem vento, nem ventania,
Noite de mar e lembranças..."

Cecilia Meirelles

Estava com um chápeu rosa e tão arrumadinha. Fitas de cetim. Sapatos brancos. Meia-calça. Era pequeníssima. Menor que uma televisão de 20`. Tinha cabelos finos, lisos, castanhos. E franjas.

Choveu. Choveu frio e indefinidamente. A água estragou o chápeu, o vestido, a meia-calça. Estragou os sapatinhos de boneca.

A chuva me divertiu imensamente. Levou embora as poses para as fotos e trouxe o colo do pai. A corrida para um abrigo.

Levou o ar de século passado.

Levou o artificialismo belo.

A chuva que redime, que limpa, que transforma.

Eu tinha três anos. Eu sempre soube.

Sempre.

A chuva que destroi, salva.

Maria Anita3:18 PM Comments:
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