Sete Faces



Quarta-feira, Março 31, 2004


" How would I explain?
How would I explain this to my childrem if I had them?"**
Alanis

Começaria dizendo que é complicado, injusto e lindo. Falaria dos arco-íris, que eles nascem daquele encontro suave entre o sol e a chuva. Que uma viúva se casa nesse instante e do pote de ouro que jaz no fim de cada um.

Falaria das pessoas más, que moram nas sombras, atrás dos muros, nos pontos de ônibus. Falaria das pessoas más e deixaria que descobrissem sozinhos as pessoas más em cada um de nós.

Falaria o que sei de deus e deixaria nas mãos deles acreditar ou não. Contaria da teoria do eterno retorno, de Buda e do niilismo caótico.

Ensinaria que existem bandas e bandas. Que alguns filmes você simplesmente tem que amar. Que todo mundo tem o direito de ser triste mas é preciso resistir.

Explicaria que todo mundo devia saber nadar, dirigir e andar de bicicleta. Que é preciso ser gentil com todas as pessoas e sorrir, mas que às vezes é dificil. Diria que todo mundo um dia viverá um grande amor, mesmo que eu duvide. Inventaria histórias para que dormissem e tivessem sonhos bons.

Seria exageradamente relapsa com notas e isso os prejudicaria de alguma forma obscura.

Explicaria o mundo em cores vibrantes e alegres e torceria para que eles descobrissem o mais tarde possivel que não é bem assim.

Diria que não havia nada neles de que pudessem se envergonhar. Não permitiria que fizessem piadas bizarras e estúpidas com nenhuma minoria. Diria que as diferenças são as coisas mais lindas da vida.

Meus filhos seriam mimados, super- protegidos e insuportáveis.

E eu não os teria de nenhuma outra forma.


Post conjunto com o GET ME AWAY, que ontem fez um ano de vida.

** "Como eu explicaria?
Como eu explicaria isso para os meus filhos se eu os tivesse?"


Maria Anita11:52 AM Comments:
Sábado, Março 27, 2004


"When you're through with life and all hope is lost,
Hold out your hand cos friends will be friends right till the end".
Queen

Eu tinha um grande amigo. Daqueles indispensáveis.

Daqueles de entrar na casa sem bater, entrar no quarto sem pedir, dividir o chocolate sem perguntar.

Eu tinha um grande amigo para pequenas conversas. Para ficar a tarde falando de assombração, desenho animado, figurinhas, o próximo jogo de futebol.

Um amigo pra falar de grandes coisas. De solidão, lágrimas e medo. De amor e sexo e de desprendimento.

Um amigo pra jogar a brincadeira do copo e invocar espiritos malignos. Para jogar verdade e consequencia e nem ter graça, porque não havia mais verdades pra contar. Um amigo de É, Não e Porque.

Um amigo de conhecer a mãe o irmão o pai o cachorro o avô e os primos.

Um amigo de ter ciúmes e apertar a mão.

Eu tinha um amigo de nadarmos juntos e andarmos de bicicleta e de patins.

Um amigo de tomar grandes decisões, de fazer pequenas fofocas, de aprender e ensinar.

Eu tinha um amigo que amei com carinho único. Uma daquelas pessoas que bastavam.

Hoje nos vemos e nos dizemos um oi constrangido.

Eu me pergunto como se perde um amigo assim.

Se eu telefonasse e marcassemos um cinema eu sei que conversariamos como antes. Sei que superariamos anos de afastamento imaginario. Sei que tudo seria flores e entendimento.

Porque ele foi meu grande amigo por uma decada. Porque eu conheço seu passado. Eu não sei quem ele é hoje. Eu não sei do que tem medo, ou o que houve nesses ultimos tempo.

Eu queria saber.

Queria que ele me ligasse e marcasse o cinema.

Mas passamos dessa fase. Somos pessoas diferentes agora.

E se tivessemos um pouco mais de coragem podiamos estar juntos ainda.

É sempre assim que eu perco as pessoas. Sem querer.

Eu me machuco,as machuco e as abandono. Depois carrego elas comigo para sempre.

Eu e minha maldita auto-preservação.

Eu e meu medo eterno.

Eu e minha passividade.

Tenho companias terriveis.

Eu trocaria todas elas por meu amigo de volta.

Meu bom amigo que até hoje não sabe porque não nos falamos mais.

Que não sabe o que houve.

O negócio é que eu também não sei.

O que eu posso fazer é citar o Clube da Luta, de novo:

"Nos conhecemos num periodo muito complicado da minha vida"

E todos os prédios explodem.

O que eu posso dizer...

Era um periodo muito complicado. Me desculpe. Eu sou uma incompetente emocionalmente. Eu não sei lidar com os outros. Eu sou uma grande ilha. Eu não queria ser assim.

Eu não queria perder mais ninguém. Meus velhos amigos se foram mas fiz outros ótimos. Lindos.

Tenho esperança que eu esteja mais preparada pra eles.

Tenho esperança porque desta vez, eu quero fazer certo e não perder mais ninguém.

Maria Anita10:04 PM Comments:
Sexta-feira, Março 26, 2004


"Sing me to sleep
I'm tired and I
I want to go to bed"
The smiths

Quando cheguei de viagem era madrugada ainda. Fazia frio nos ossos e chovia.

A rodoviaria de Goiania é infinitamente mais assustadora de madrugada do que a de Uberlândia.

Na rodoviaria de Goiânia eu tenho que sentar e esperar meu pai sair do plantão pra vir me buscar.

Fiquei escutando o CD dos Smiths, deitada no banco como uma mendiga. Uma sem teto. Alguém sem ninguém.

As pessoas passavam, escassas, jogando olhares reprovadores.

Mantive os olhos no teto branco e fiquei escutando as músicas tristes no fone.

Era quase hipnotizante com a chuva o frio e a solidão estranha.

Era quase como voltar a época do ginásio, quando o hall do colégio cheirava pipoca, laranjinha e sabonete infantil e eu ficava esperando alguém pra me buscar. Bem filha da classe média.

Ali na rodoviária era diferente. Era escuro e estranho e eu ignorava o olhar de súplica muda dos taxistas.

Quando meu pai chegou, de jaleco ainda e cara de quem não dormiu nada nos ultimos três dias, eu apenas sorri e não falei nada.

As coisas que nunca mudam são estranhamente reconfortantes.


Maria Anita7:46 AM Comments:
Quarta-feira, Março 24, 2004


"When your heart`s on fire, you must realize
Smoke get`s in your eyes"
Billie Holiday

Lá estava meu pobre coração em chamas de novo. Meu rosto vermelho talvez em vergonha. Talvez por um certo amor ou contenção, talvez por raiva. Por ódio reprimido. Por dor. Não importa mesmo o motivo. A questão é que pegava fogo. Que se destruia, corrompia, voltava, proverbialmente, ao pó.

O problema era a fumaça nos olhos. Sempre foi. Se não, eu seria a primeira a pegar o isqueiro, a caixa de fósforos, as duas pedras iniciais. Eu acenderia as velas, as fogueiras, poria fogo em Roma, no colchão, no carro, nos livros de Patologia.

Meu coração arde sem meu comando, porque se eu pudesse evitar, escolheria a mesmisse a ter de enfrentar a fumaça.

O problema nunca foi o fogo. O fogo é lindo, quente e de certa forma reconfortante. O fogo é aquele com que você pode contar pra deixar tudo pra trás. Pra viver loucamente. O fogo destruiria as vidas medíocres, ou melhor, a mediocridade das vidas, como num grande apocalipse.

O problema do fogo é a fumaça nos olhos.

É o ardor, a vermelhidão, as lágrimas.

O problema de riscar o primeiro fósforo, dar o primeiro sorriso, arriscar o primeiro passo, escrever a primeira carta de amor, não é a emoção do momento, a alegria da chama, o problema é depois, o problema é a fumaça que sobe.

Dentre o grande número de coisas das quais tenho medo, a que me assusta mais é a maldita fumaça que me subirá aos olhos se meu coração queimar loucamente. Se queimar não porque eu abaixei a guardar, afrouxei a vigilia. Não queimar por descuido ou invasão. Mas queimar porque eu quis. Porque eu permiti.

Nos últimos tempos, porém, sinto uma certa coragem. Sinto que mudei. Que tenho medo ainda, mas sou capaz, agora, talvez, de enfrentar um pouco de fumaça pela beleza da chama.

Quem sabe.


Post conjunto (atrasado de novo) com o get me away

Maria Anita1:22 AM Comments:
Sexta-feira, Março 19, 2004


Então estavamos lá de novo. Eu e a chance da minha vida.

Aquele momento primo onde tudo é luz e você sabe exatamente o que fazer. O que dizer. Como mover os braços.

Aquele instante onde nada pode dar errado, onde tudo caminha para o norte, onde os teletubbies dormem.

Lá, solitárias, a chance e eu.

Eu pressionei o play porque todos as cenas em camera lenta precisam de trilha sonora.

Nada moderno, na verdade, algo saido daqueles CD`s velhos da minha mãe. A marcha das valquirias, porque Wagner cai bem quando se trata da chance. Talvez Mozart, por quem me apaixonei desde que vi Amadeus, há tantos anos. Beethoven não. Nem Brahms. Quem sabe Bach, sim, quem sabe...

E aquela era uma dessas cenas, com música de fundo, com a camera dois se apoximando e cortando para a quatro, distante.

E nós lá, paradas em um segundo eterno.

Na minha mente viria coisas estúpidas como a cor do carro que passou, o último poema de Bandeira, o banheiro que eu tenho que lavar e uma macieira ao vento. Eu sei o que tenho que fazer.

O problema é o peso de minha mão, a força da gravidade e da inércia. O problema é o medo que paralisa minha musculatura estriada e transforma a lisa em geléia. O problema é o susto de saber que ali está ela, a chance da sua vida. E agora? E se você estragar tudo? Vem na minha cabeça junto com a macieira e Bandeira.

E se chover, se nevar, se se se ...

E meu dedos movimentam-se lentos e eu sei que vou precisar de um pouco mais do que aquele segundo eterno.

Mas as chances são velozes, elas estão em FF enquanto vamos de Slow Motion.

Eu tenho medo que a chance passe sem eu notar.

Tenho que segurar ela rápido e esconder no peito porque penso que talvez nunca mais consiga outra na vida.

Nunca mais.

E esse é um pensamento tristíssimo.

Maria Anita12:13 AM Comments:
Terça-feira, Março 16, 2004


Até hoje:

Eu faço desenhos nas beiradas do caderno

Compro laranjinha de chocolate e menta

Choro quando o personagem principal morre

As pessoas se vão sem sem que eu permita

Jogam lixo na calçada

Recebo correntes por email

Vejo filmes da Disney

Tenho medo de barata

Fico vermelha a toa

Pessoas morrem de aids e fazem sexo sem camisinha

Eu nunca assisti a terceira temporada de AX

Nunca fui a europa

Nunca fiquei tão, tão feliz que chorei

Não arrumei meu guarda roupas

Não telefonei

Não escrevi

Eu amo a chuva com restrições

Escrevo palavras no vapor do espelho

Deixo amigos se perderem

Até hoje não sei viver direito e me perco.



Post conjunto com o Get me away

Maria Anita9:56 PM Comments:
Domingo, Março 14, 2004


Amor, meu grande amor, não chegue na hora marcada...

Esperei pacientemente por tudo na minha vida. Racionalizei. Inventei desculpas falhas. Tolerei atrasos e dissabores. Comprei livros baratos e virei noites na internet. Saí para dançar. Assisti filmes de terror. Fui escrava de um tempo cruel que nunca passou como eu quis que passasse. Onde nada chegava quando eu queria. Quando eu pedia. Onde os ponteiros rodavam avessos a minha vontade.


Assim como as canções, como as paixões e as palavras

E meu coração sempre bateu forte por coisas pequenas. Por palavras tolas jogadas no mar. Por canções baratas de madrugada. Como um copo de vinho tinto e doce. Como bombons com recheio de cereja. Meu coração sempre foi fraco e tolo, coitado. Nunca suportou bem essas montanhas russas que nos obrigam. Sempre foi covarde.

Me veja nos seus olhos na minha cara lavada

E as mentiras que contei para fugir mais rápido me doem na cara até hoje

Me sinta sem saber se sou fogo ou se sou água

E o que não entendi em mim escondo embaixo das mangas. Dentro da boca entre os dentes. O que não sei de mim não forço. Disfarço e assobio, mudo de assunto.O que não sei de mim é bem assustador.


Amor, meu grande amor, me chegue assim bem de repente

E as surpresas da vida me metem medo e fazem eu acender todas as luzes da casa. Telefonemas de madrugada deixam meu peito pesado por anos a fio.


Sem nome ou sobrenome, sem sentir o que não sente

Quero que me apresentem as menores coisas, então tudo será conhecido e catalogado. Tudo será seguro e pouco perigoso. Tudo será macio e sem pontas. Deem nome para tudo e me contem.

Que tudo o que ofereço é meu calor, meu endereço

O que tenho de bom guardo pra mim. Porque se eu oferecer e não for bem tratado, nunca me recuperaria. Sou ridicula.

A vida do teu filho desde o fim até o começo

Tudo que tenho de bom é meu e apodrecerá sem nascer. Tristemente.

Amor, meu grande amor, só dure o tempo que mereça

E as injustiças da vida seguirão seu caminho torto, perseguindo as almas que falharam. Perseguindo quem não conseguiu seguir as placas.

E quando me quiser que seja de qualquer maneira

Então escreverei cartas grandes que não farão nenhum sentido. E pintarei um quadro abstrato que não terá significado oculto nenhum. Falarei coisas estranhas para disfarçar o que sempre esteve obvio, o que eu nunca consegui esconder nem contar.

Enquanto me tiver que eu seja a última e a primeira

Falarei de asas e anjos e os signos chineses. Falarei dos simbolos carmicos, da vida que passou sem ninguém ver. Falarei dos doentes, de cancer, choque e dos mortos. Falarei do sorrisos dos outros. Falarei qualquer coisa para não dizer nada.

E quando eu te encontrar, meu grande amor, me reconheça

Falarei pra disfarçar uma ignorancia cronica. Uma inutilidade sem fim. Falarei por não saber mais o que fazer. Por não querer ficar mais no mesmo lugar e não ter mais para onde ir.

E se meu grande amor não tiver muita paciencia talvez fiquemos na chuva por muito tempo ainda.

Maria Anita2:17 PM Comments:
Sexta-feira, Março 12, 2004


O sete faces entra agora em seu Periodo Azul.

Ainda não está do jeito que eu quero. Mas há esperança.

Maria Anita12:56 PM Comments:


O professor me olhava enquanto dizia sobre farmacos e meia vida e eu pensando no pastel de carne com pimenta da lanchonete do hospital. E uma coca bem gelada. Ando tão saudavel. Fico pensando nas grandes levas de gordura correndo por meu sangue, depositando-se lentamente nos vasos. As pequenas gotas virando placas enormes, entupindo tudo até o oxigenio não passar mais. Até que a desnutrição mate todas as minhas pequenas células.

O pensamento não tira em absoluto o pastel de carne da minha cabeça.

Quase hora do almoço, o que, tenho que confessar, vai ser provavelmente miojo. O professor insiste em falar eternamente. Algo até interessante sobre concentrações que poderão ou não matar o paciente. Pacientes que com certeza comeram muitos pastéis de carne nos seus 19 anos. Ando preocupadissima. Também com a caixa de bombons que comi inteira nos ultimos 15 dias.

Placas de gordura em artérias não parecem mais uma realidade distante. Até os rins ultimamente parecem dar mais problemas que ter utilidade. Rins são um saco. Principalmente quando vem em fatias em saquinhos e você tem que falar pro professor porque eles não estão como deveriam estar. Sei apenas que são perigosissimos, os rins. Os farmacos também.

E que nos hospitais os doentes são gente viva. São pequenos e frágeis. Respiram com dificuldade e gritam. O hospital me assusta de forma irremediavel, acusando minha inutilidade. A impressão geral é que entramos num mundo fechado, de onde ninguem sai. Nunca. Nem nós.

E agora volto ao pastel de carne.

Maria Anita12:54 PM Comments:
Terça-feira, Março 09, 2004


" Somewhere over the rainbow
skies are blue
and the dreams that you dare to dream
really do come true "
Mágico de Oz

Fomos
para São Paulo. A viagem mereceria 30 anos de posts, mas ando sem tempo. Culpa da TV a cabo e dos anos que preciso compensar. Foi divertido lá. Aquele tipo de divertido em que depois você pensa: POderia pular de alegria mas minhas costas doem. O dia inteiro em pé olhando os quadros. Virando o pescoço para não perder nenhum prédio, nenhum detalhe. Hoje, porém, não é sobre isso que vim falar.

Não vim falar que encontramos a Camila e o Rodrigo e que foi divertidissimo. Que foi bom conhece-los enfim. Saber todas aquelas coisas. Cor dos olhos, tipo de oculos, sotaque e risada. Saber que Suzete era a mãe. Coisas infinitamente importantes.

Hoje vim falar mesmo dos sonhos que se realizam, não aqui, onde estamos. Onde a realidade é estatica. Onde os lugares não se modificam. Não aqui onde vivemos e somos felizes e tristes, mas além.

Além do Arco iris, porque não? Além de Minas. Além, apenas. Onde tudo é diferente. Onde espantalhos precisam de cérebro e leões de coragem. Onde meninas andam de sapatinhos de rubi e procuram lares distantes. Papoulas e bruxas do oeste que se danem, além do arco iris tudo é festa.


Post com-junto com o Get me away

Maria Anita1:53 PM Comments:
Quarta-feira, Março 03, 2004


"O mais importante na vida não é a situação onde estamos, mas a direção para a qual nos movemos." O.W. Holmes

Creio que finalmente estou me movendo. Andando. Seguindo em frente.

Está no ar, como poeira vermelha. Como germes. Como mágica.

Está nos meus pés, nos meus tenis cada vez mais sem solado.

Sinto que o mundo gira mais rápido.

O quinto periodo finalmente chegou. Uma coragem ainda frágil parece que nasce.

Como a velha metafora da flor no asfalto.

Tirei a proverbial pedra do peito. Sigo em velocidade maior que a dos continentes.

Estou animada. Não com o hoje ou o agora, que está interessantemente igual sempre foi. Mas com o futuro, que tem tudo pra ser fantastico.


Post conjunto (atrasado) com o Gabriel

Maria Anita4:20 PM Comments:
>





















 

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