Sete Faces



Sábado, Maio 29, 2004


"Yeah the truth is, that I miss you so" Coldplay


Regredi, ando com saudades de tudo.

Tudo mesmo.

Saudades da minha mãe e de rirmos juntas lendo gibis. Do meu pai e da época em que eu sentava no pescoço dele e ficava subitamente alta.

Sinto uma falta nauseante das minhas avós e do cheirinho delas de sabonete.

Sinto falta do meu irmão e de quando jogavamos video game.

Falta de ir ao cinema com o Bruno, das conversas descompromissadas com o Gb's, das teorias do Jota, da desconfiança do Marcelo. Saudades da Thallita e do tempo em que ainda conversávamos. Do sorriso facil da Lisinha. Falta da Liliane. Da Marcinha. Sinto falta do Daniel. Da Luciana. Da Vivien.

Que saudade do que nem perdi. Saudade do que nunca mais será.

Que falta da Mary e de Arquivo X. Da Lizzie. Da Terry.

Saudade mesmo, de pesar o peito.

Saudade das minhas cadelinhas. Das minhas tias. Da Lu.

Sinto da falta da Lia.

Falta do que não posso mais.

Sinto uma saudade acre, como se nunca mais fosse vê-los. Como se não os estivesse vendo agora ou fosse encontra-los segunda feira.

Sinto uma saudade irremediavel de tudo.

Do Rafa, do Giu, do André.

Saudades da Danila.

Saudade do passado. E ponto final.


PS: Alta Fidelidade hoje no SBT. 00:30h.

Maria Anita12:14 PM Comments:
Terça-feira, Maio 25, 2004


"My words and smile are so easy now
Yes, It's easy now
Yes, It's easy now"
Franz Ferdinand

Vivo agora num estado crítico do dia. Algo entre o sol e o nada. Algo embaixo das nuvens. Onde eu vivo hoje é mais fácil.

Eu falo mais. Sorrio mais. Até choro com motivos mais concretos.

Onde vivo agora a luz é suave e eu lido melhor com o mundo. Com as pessoas, as árvores, as pedras e os animais.

Eu estudo ainda menos e me culpo menos por isso.

Eu fujo da realidade com menos furor e me entrego sutilmente ao mundo.

Creio que vim de um amadurecimento súbito que me regrediu.

Creio que vou me redimindo pouco a pouco, tornando-me mais sólida e menos água.

Sinto que sou quase concreta. Que as pessoas me entendem mais e eu, mais as pessoas.

Me reprimo menos por meus erros e aceito menos os erros dos outros.

Conclui que nem sempre aceitar tão abertamente o erro alheio é uma coisa positiva.

Aprendi que nem sempre é bom achar tudo tão natural.

Mas ainda tenho dificuldade com o conceito.

Agora não sou exatamente mais feliz. Sou mais alegre por ter mudado o foco de minhas responsabilidades.

Sou mais agradavel. Mais palatavel. Menos indigesta.

Sou fácil. Facilima.

Sorriu e falo mais agora.


Post Conjunto com o Get Me Away

Maria Anita5:42 PM Comments:
Sábado, Maio 22, 2004


Moça, olha só o que eu te escrevi...é preciso força...pra sonhar e perceber, que a estrada vai...além do que se vê...

Eu ia no ônibus escutando na função repeat, batucando os dedos pra incomodar o advogado do meu lado. Eu ia ignorando a Reese na TV e outro filme da Disney. Ia levando. Era bem noite e apesar de cansada não dormi. A música não deixava, insistia, queria me contar alguma coisa que eu, idiota, não percebi.

sei, que a tua solidão me dói e que é dificil ser feliz, mais do que somos todos nós ... você supõe o céu

Cheguei em casa e vi uma série boba no SBT. Uma menina morria de leucemia num eterno clichê chorão. Caí. Acordei tarde. Passei o dia bem. Assisti Adeus, minha concubina. Um filme amargo e triste. Sobre a China antiga, amores sutis e traição. Sobre a vida e a arte e como andam próximas. Um filme dificil e solitário.


sei que o vento que cortou a flor passou também por nosso lar e foi você quem desviou, num golpe de pincel


Vendi umas rifas e passei no HDT. Hospital, mais um. No fundo são tão iguais que anda me dando depressão e ao mesmo tempo, um estranho senso de familiaridade. É como se eu os conhecesse, todos. Como se tivesse nascido em um (ham-ham)


eu sei é o amor que ninguém mais vê, deixa eu ver a moça... toma o teu, voa mais: Que o bloco da família vai atrás


Assisti as Bicicletas de Belleville. Que filme bonito. Que meigo. Que olhos. Algo melancolico e antigo. Algo estranho, caricato, doloroso. Algo cinico. Depois comemos torta e gastei um dinheirão. Neguei um show da Adriana Calcanhoto pra ficar em casa e escutar mais da mesma música. Perdi a palestra do Mário Prata, droga.

põe mais um na mesa de jantar, que hoje eu vou prai te ver...e tira o som dessa tv pra gente conversar

Ficamos falando de coisas antigas e shit-chatting. Quase dormi. Bati os olhos como nos filmes quando a gente pesca. Deixei meu discman com a Antonia. Passei no correio pra deixar a carta do Bruno e o relatório de Patologia. Revi tia Hilda e a Elaine num surto súbito de saudades. Amanhã tem lasanha e familia.

diz pro Bambo usar o violão , pede pro Tico me esperar e avisa que eu só vou chegar no último vagão

Tenho que escrever o teatro de CCAS, mas estou tão sem inspiração. Só quero ficar ouvindo música. Talvez eu saia agora pra locar um filme meigo, talvez. Comi atum e falei oi pro meu pai. Ligeiro e sonolento. Tenho a semana ainda. Minha mãe falou de contas e deixei Curitiba pruma hora mais propicia.

é bom te ver sorrir, deixa vir a moça que eu também vou atrás e a banda diz: "assim é que se faz"

Minha fuga de Uberlândia vai seguindo produtiva e deixo as ramificações para depois. Virão, mesmo que eu preocupe com elas. Então não penso no assunto. Ocupo meu tempo. Espero. Sou boa de esperar. Escuto eternamente a mesma música. Que música boa.

Que música boa.

sei que a sua solidão me dói
sei que aquela mesa de jantar...
(Além do que se vê, Los Hermanos)

Maria Anita8:34 PM Comments:
Terça-feira, Maio 18, 2004


Fraquezas e Coragem

Tenho 7 cicatrizes.

Cabalistico e holistico, o número do mentiroso, sei lá, mas são sete.

Uma na testa, de uma garrafa de coca cola e teimosia.

Outra no canto da boca. Um mistério.

No queixo, de uma briga.

Três nos braços. Fogo.

E uma no joelho. Queda.

As outras são marcas de catapora. Inconsequencias com facas e laranjas. Estrias.Vacinas. Até maribondos.

As outras não contam, são fraquezas.

Minhas sete cicatrizes são coragem.

Acredito que nossas marcas são as provas de que vencemos. Que seguimos. Que fomos humanos.

Acredito que não se passa incólume por viver. Que se sofre.

Gosto das cicatrizes. De cada uma delas.

Gosto de todo processo que meu corpo passou para que eu tivesse cada uma delas.

Gosto do band-aid do Mickey azul que eu tive que por.

Creio que não superamos a grande maioria de nossas fraquezas. Morremos com elas, por elas, às vezes.

E não importa.

Nossas pequenas coragens superam cada uma delas.

Nossa coragem diária, de abrir os olhos, levantar da cama, enfrentar o mundo.

E se temos algumas cicatrizes, vitória. Sobrevivemos ao tempo.

Ficamos fortes.

Fraquezas é o que nos torna iguais, como todos.

Coragem nos faz únicos e distintos. Cada um na sua própria.

Tenho sete cicatrizes.

você?


Post conjunto com o Get me away (agora em novo formato)



Maria Anita4:02 PM Comments:
Sábado, Maio 15, 2004


Ih, amor, nem sei mais das coisas. Nem sei mais.

Tá tão estranho tudo. Hoje choveu e ficou frio e frio.

Hoje nem fez sentido. Nada.

E antes eu costumava saber de tudo e era muito esperta. Antes eu tinha grandes respostas. Muita simplicidade.

Antes, amor, antes.

Hoje não gosto mais quando chove assim. Hoje gosto do sol e das marquinhas de biquini no meu corpo. Hoje gosto de sol e de gente.

Me divirto pouco sozinha, agora.

Eu era boa sozinha. Era boa. Não precisava muito dos outros não.

Seguia bem por mim mesma. Just fine... just fine.

Hoje gosto dos outros. Gosto dos outros. Dos pequenos detalhes. Dos segredos. Dos sorrisos.

Gosto até do que irrita. Gosto do que degrada.

Ih, nem sei mais, nem sei mais das coisas.

Sabe quando você cresce? Nem cresci e nem sei mais.

Estou quase fazendo 20 sabe? Que idade grande.

Que tanto tempo. Tudo que tem vinte anos é irremediavelmente longo.

Sou eterna agora.

Farei vinte. 20. vinnnnnte.

Agora serei diferente. Agora não gostarei mais da chuva com aquela paixão toda. Daquele friozinho. Daquela melancolia.

Agora serei toda verão.

Quero mudar de estação.

Sentirei falta dos meus coelhinhos, dos chocolates, dos livros. Sentirei falta da sessão da tarde. Da internet.

Sentirei falta dos mundos que criei. Da inocencia. Dos dinossauros e dos leões.

Sentirei falta das crianças, das fogueiras, das bandeirolas. Sentirei falta de Julho.

Nem sei mais. Nem sei mais.

Vou vivendo bem. Assim mesmo.

Maria Anita7:27 PM Comments:
Terça-feira, Maio 11, 2004


"It is never too late to be what you might have been."- George Eliot


Post conjunto com o Get me away


Nunca é tarde, não, nunca.

Segundas chances nos são dadas todo o tempo.

Até a hora da morte, que como disse Bandeira, o mestre, é o fim de todos os milagres.

Até a hora do fim há esperança.

Como nos filmes piegas de Hollywood. Filmes com crianças e cachorros. Filmes de redenção.

Creio que sempre é tempo para as coisas novas.

Antes você teve medo, antes você era covarde, muito jovem, muito pobre, sem juízo. Antes você não tinha algo, ou algo sobrava. Antes você era outra pessoa. Agora você é a pessoa que você deveria ter sido.

Agora é a sua chance. Há tempo.

De aprender a ler. Largar o vicio. Emagrecer. Começar os exercícios. Largar o açúcar.

Ainda é tempo de coisas difíceis. De pedir desculpas. De ajudar. De pedir ajuda.

Ainda é tempo de amar. De ter filhos. De estudar.

De ser bom. De ser melhor.

Ainda é tempo de chorar. De perder.

De mudar de idéia.

Pra que ser igual sempre? Ser o que você era? Estático.

Temos que evoluir. Nós temos tempo.

Enquanto houver vida.



Maria Anita10:58 PM Comments:
Sábado, Maio 08, 2004


Eu-lírico masculino

Comecei menino nessas coisas da vida. Comecei errado. Devia ter traçado melhor meu caminho. Ter jogado migalhas de pão para nunca me perder. Sempre fico perdido facilmente, dividido entre o querer e o precisar. Fico pensando se precisar de algo é amar. Se o amor vindo da necessidade é um amor menor. Me disseram certa vez... você não me ama, precisa de mim. Na época não soube a diferença. Ainda hoje não descobri.

Creio que precisar é uma forma válida de amar. Ainda mais eu que sempre precisei do mundo. Ainda mais eu, que nunca me bastei. Segui garoto tropeçando nos fios do meu sapato. Na barra de minhas calças. Segui com pequenas cicatrizes nos cotovelos.

O coração quando adquire certo volume entre em falência. Assim morrem os chagásicos, com o coração tão pesado que não suporta seu próprio peso. Morrerei assim também, com o coração tão cheio de coisas que não consegui deixar para trás. Não durmo sozinho, não sei. Sozinho fico acordado vigiando o escuro. Não sei ser só.

Talvez tenha sido meu primeiro erro, aquele inicial que derrubará os dominós que se seguem.

Não tracei minha própria estrada, caminhei em companhia de outros, que sempre iam embora, cansando-se acho, da minha precisão. Do meu amor. Estranho que a vida seja assim tão avessa a minha vontade. Farei de mim uma versão moderna de Alice, viverei para lá do espelho. Viverei num mundo de rainhas brancas que preveem os futuro. de Humptys e Tweeds.

Viverei num mundo ao contrário. Com os pés pro alto e as mãos pro chão. Fui menino do vento, maluquinho. Cresci. Cresci puxado. Cresci Peter Pan, sem querer. Cresci e sou assim hoje. Podiam desligar a luz, é tão claro aqui.

Tão insuportavelmente claro.

Maria Anita3:14 PM Comments:
Terça-feira, Maio 04, 2004


"I know the truth awaits me
But still I hesitate because of fear"

Is it wicked not to care? - Belle & Sebastian



Digo a mim mesma que é normal ter medo.

É normal.

Tento me convencer.

Repito.

Normal, normal.

Pré-vejo. Tento enxergar as ciladas em todas as esquinas. Tento não me perder de mim.

Faço cálculos estranhos onde nada pode dar errado. Invento desculpas. Fujo de perguntas perigosas. Fujo de respostas diretas. Rodeio. Enrolo.

Viajo. Ignoro.

Um dia passa.

Um dia passo.

Tento me proteger. Firmo os braços em torno de mim. Ponho os dois pés atrás.

Divido só o que não importa. O que magoa mesmo nunca contei pra ninguém.

Guardo comigo onde ninguém pode ver e rir.

Tenho medo.

É normal ter medo, é normal.

A verdade é obvia, simples e delicada.

A verdade não é nada espetacular, não é nenhum babado fortissimo. Não é nada que interesse o submundo dos rumores.

A verdade são pequenas coisas infinitamente dificeis de dizer.

A verdade está na pele frágil abaixo dos olhos, embaixo das unhas. A verdade está no omitido.

Não minto. Disfarço.

Não resolvo. Adio.

Não me preocupo com as pequenas coisas... Notas, estudo, arrumação do quarto. As grandes coisas já me ocupam todo tempo. Porque tenho medo.
Sou uma covarde. Não costumava ser.

Pergunto-me quando me tornei.

Um dia ultrapassarei esses medos, com e sem fundamento, e encontrarei a verdade sobre a qual viverei.

Ou talvez, através da verdade, ultrapassarei o medo.

Sei lá, não lembro mais. Nessa aula eu estava pensando em outra coisa.

Estava planejando o futuro para que ele não me assustasse mais.

Post conjunto com o Get me away



Maria Anita11:05 PM Comments:
Sábado, Maio 01, 2004


O menino que desapareceu


Quando acordou sentiu que não tinha orelhas. Sua mãe olhou
apressada para seu rosto, ajeitou uma mecha de cabelo revolta
e perguntou cadê os óculos.

- Estou sem orelhas.

Ela fez um breve Ah de quem entendeu e continuou a procura
pelas chaves do carro. No outro dia ele perdeu três costelas,
dois dedos e todos os caninos. Sentiu por seu sorriso
incompleto, por isso pouco falou desde então. Ninguém sentiu
falta.

A cada dia acordava sem algo novo. Às vezes, nos dias muito
ensolarados, nos sábados de praia, quando recebia um abraço
inesperado, era algo mínimo: fios de cabelo, unhas, até o
apêndice do intestino, certa vez. Quando fazia frio, os
vizinhos gritavam, ou passava o dia no quarto vazio amanhecia
sem os dedos do pé, uma mão, o baço.

Temia o dia em que sumiria completamente. Pensou em ir ao
médico, mas perdeu a língua de tão nervoso e desistiu. Sua
mãe o olhava como quem sabe que alguma coisa acontece, uma
noite ímpar em que jantou em casa perguntou irritada se
estava usando drogas.

Fez que não com a cabeça porque já tinha perdido até os
lábios na ocasião.

Na quarta semana depois que perdeu as orelhas não pode mais
sair da cama. Estava sem pernas. Ficou assistindo TV, era
Domingo e seus parentes iam para casa da avó. O telefone não
tocou uma única vez e ele se condenou ao Faustão.

Antes que alguém notasse, numa manhã azul, fez uma neblina
densa em sua rua e ele desapareceu por inteiro.

Estranhamente, a vida seguiu despercebida.




Maria Anita3:37 PM Comments:
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