Sete Faces
Terça-feira, Agosto 31, 2004
" Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra." Saint Exupéry
Tenho boa memória para rostos.
Os muito próximos vão sempre comigo.
Não esqueço dos outros. Simplesmente não consigo.
Cada um dos meus amigos, atuais e antigos, marcaram minha vida de forma irreversível.
Um dia uma professora me disse que as pessoas são inesquecíveis, insubstituíveis, nunca.
Até concordei um tempo, mas não é verdade.
As pessoas são insubstituiveis. Cada uma é única, particular, prima.
Seus desafetos, suas paixões, seus pequenos delitos.
Cada pessoa segue em nossa vida num caminho particular e deixa rastros diferentes. Alguns de destruição, outros de alegria.
Insubstituiveis, temos que tomar cuidado com as pegadas que deixamos.
Post Conjunto com o Martini Seco
Maria Anita10:42 AM
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Quarta-feira, Agosto 25, 2004
"Maybe I just want to fly" Oasis
Talvez não seja mesmo voar, seja cair¿ com estilo.
Cair com estilo como aquelas meninas do salto ornamental.
Quem precisa voar quando se cai tão graciosamente?
Eu me contentaria em cair assim.
Voar pra quer?
Voar dói. Pra voar teriam que nascer em mim essas difíceis asas.
Estou bem assim, no trampolim.
Saltando maravilhosamente e pousando suave na água.
Post conjunto com o Martini Seco
Maria Anita10:45 PM
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Sexta-feira, Agosto 20, 2004
Nem faz mal esse jeito meio torto de andar. Nem faz mal essa voz estranha. Os óculos. Um certo estabanamento nos braços. Nem faz mal essa preguiça morna, esse desleixo, essa letra que cai para dentro de si.
Nem faz mal notas relapsas, o sono. Nem faz mal essa gula, essas lágrimas. Nem faz mal a risada estranha e larga, os olhos que confiam sem acreditar.
Mal mesmo são essas sombras, esse medo. Essa angústia pelo que virá. O que faz mal é esperar vigilante o pior sempre. É a desesperança. O que faz mal é essa recusa de se crescer, de se dividir, multiplicar.
O que faz mal é querer ficar estática no tempo. É preferir o escuro. O que faz mal mesmo é a mágoa que se guarda, as dívidas não pagas, as promessas que pesam no ar, incumpridas.
O que faz mal é a doença que nos corrói, silenciosa. O mundo que faz questão de nossas cicatrizes. A pele cada vez mais áspera e a alma frágil.
O que dói é o que deixamos passar, o que permitimos que se vá, o que falamos sem muito querer.
Esses outros pequenos deifeitos, nem faz mal, se preocupar pra que?
Maria Anita8:20 PM
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Quarta-feira, Agosto 18, 2004
Amor, meu grande amor, não chegue na hora marcada...
Esperei pacientemente por tudo na minha vida. Racionalizei. Inventei desculpas falhas. Tolerei atrasos e dissabores. Comprei livros baratos e virei noites na internet. Saí para dançar. Assisti filmes de terror. Fui escrava de um tempo cruel que nunca passou como eu quis que passasse. Onde nada chegava quando eu queria. Quando eu pedia. Onde os ponteiros rodavam avessos a minha vontade.
Assim como as canções, como as paixões e as palavras
E meu coração sempre bateu forte por coisas pequenas. Por palavras tolas jogadas no mar. Por canções baratas de madrugada. Como um copo de vinho tinto e doce. Como bombons com recheio de cereja. Meu coração sempre foi fraco e tolo, coitado. Nunca suportou bem essas montanhas russas que nos obrigam. Sempre foi covarde.
Me veja nos seus olhos na minha cara lavada
E as mentiras que contei para fugir mais rápido me doem na cara até hoje
Me sinta sem saber se sou fogo ou se sou água
E o que não entendo em mim escondo embaixo das mangas. Dentro da boca entre os dentes. O que não sei de mim não forço. Disfarço e assobio, mudo de assunto.O que não sei de mim é bem assustador.
Amor, meu grande amor, me chegue assim bem de repente
E as surpresas da vida me metem medo e fazem eu acender todas as luzes da casa. Telefonemas de madrugada deixam meu peito pesado por anos a fio.
Sem nome ou sobrenome, sem sentir o que não sente
Quero que me apresentem as menores coisas, então tudo será conhecido e catalogado. Tudo será seguro e pouco perigoso. Tudo será macio e sem pontas. Dêem nome para tudo e me contem.
Que tudo o que ofereço é meu calor, meu endereço
O que tenho de bom guardo pra mim. Porque se eu oferecer e não for bem tratado, nunca me recuperaria. Sou ridícula.
A vida do teu filho desde o fim até o começo
Tudo que tenho de bom é meu e apodrecerá sem nascer. Tristemente.
Amor, meu grande amor, só dure o tempo que mereça
E as injustiças da vida seguirão seu caminho torto, perseguindo as almas que falharam. Perseguindo quem não conseguiu seguir as placas.
E quando me quiser que seja de qualquer maneira
Então escreverei cartas grandes que não farão nenhum sentido. E pintarei um quadro abstrato que não terá significado oculto nenhum. Falarei coisas estranhas para disfarçar o que sempre esteve óbvio, o que eu nunca consegui esconder nem contar.
Enquanto me tiver que eu seja a última e a primeira
Falarei de asas e anjos e os signos chineses. Falarei dos símbolos cármicos, da vida que passou sem ninguém ver. Falarei dos doentes, de câncer, choque e dos mortos. Falarei do sorrisos dos outros. Falarei qualquer coisa para não dizer nada.
E quando eu te encontrar, meu grande amor, me reconheça
Falarei pra disfarçar uma ignorância crônica. Uma inutilidade sem fim. Falarei por não saber mais o que fazer. Por não querer ficar mais no mesmo lugar e não ter mais para onde ir.
E se meu grande amor não tiver muita paciência talvez fiquemos na chuva por muito tempo ainda.
.......
O texto que marcou a entrada do Sete Faces nesse período azul. Para lembrar que por aqui tudo já foi bem mais escuro.
Maria Anita11:32 PM
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"- Quem é você? - Perguntou a Lagarta.
- Eu mal sei, Sir, nesse exato momento... pelo menos sei quem eu era quando acordei essa manhã,mas acho que já passei por várias mudanças desde então. " Alice no País das Maravilhas
Hoje, quando acordei de manhã, tão cedo ainda, eu era outra.
É o que sempre me faz abrir os olhos todo dia.
As horas nos modificam. Muito mais, muito mais do que se pensa.
Parecem tão inofensivas, as horas. Às vezes, nós, inocentes, achamos que se passa inviolável por elas.
Mas não é verdade.
Cada escolha que fazemos. Cada sorriso que se retribui, cada morango que você deixou de comprar no supermercado, é uma possibilidade perdida e uma certeza ganha.
E a cada certeza somos mais nós mesmos e menos o que éramos há minutos atrás.
Se fossemos iguais a cada vez que o sol aparece, os dias seriam insuportáveis.
Só que não somos.
Quem eu era de manhã não interessa mais.
Agora eu sou outra. Nem muito mais diferente assim.
Provavelmente você nem notou. Eu mal percebi.
Quase deixei escapar. Quase.
Espero cada dia menos pelo minuto da minha vida. Pelo momento que me tornará válida. Que mudará minha forma de ver as coisas.
Que me melhorará de modo assustador e mágico.
Cada vez mais percebo que é devagar mesmo. E inexorável.
Que no fim do dia, não somos mais os mesmos de quando fomos dormir.
E seguro bem firme meus dedos para que não me assuste com todas essas possibilidades.
Post conjunto com o Martini Seco
Maria Anita12:46 AM
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Quarta-feira, Agosto 11, 2004
"Wait, they don't love you like i love you"
(Yeah yeah yeahs)
Espera. Espera.
Afinal, pra que a pressa?
Fica mais um pouco, baby.
Senta aí em algum lugar.
Pega alguma coisa da geladeira. Tem suco, toddynho. Algo mais adulto, hoje não. Hoje não.
Troca de roupa, toma um banho. Segura bem minha mão.
Tenho sono hoje, dormirei direto até de manhã.
Mas não se vá, não, fica mais. Vai ficando.
Traz suas roupas, a escova de dente. Traga as meias, os livros.
Espalhe por aí, a casa é grande e vazia. Não mora mais ninguém.
Tem tanto espaço.
Pode escolher o quarto, as cortinas. Pode podar as plantinhas do jardim.
Pode pregar coisas na parede. Escrever obscenidades no avesso das minhas calcinhas.
Pode, baby, pode.
Estou com sono hoje, nem vou fazer sala. A casa já é sua.
O açucar você sabe onde está, o pó do café nem eu sei mais. Procura, procura.
Espera até o sol nascer pra ir embora.
Espera mais.
Vai ficando. Meio devagar, mas vai ficando.
Espera por mim.
Me espera acordar.
Agora tenho sono. Mas não se vá.
Eles não te amam como eu te amo.
Post Conjunto com o Martini Seco
Maria Anita11:23 PM
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Domingo, Agosto 08, 2004
" Avisa que eu vou chegar no último vagão " Los Hermanos
As férias terminaram. Agora é empacotar as coisas, fazer meus jeans entrarem na mala, as malas no carro e carregar no peito esse certo aperto.
Algo meio inexplicavel. Um misto de saudade e insegurança.
Algo como o futuro, de novo.
Desapertar o botão do pause.
A vida continua.
Maria Anita2:10 PM
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Quarta-feira, Agosto 04, 2004
"Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero"(Maria Rita)
Eu queria não fazer tantos planos. Queria partir numa aventura mágica, sem nenhuma idéia na cabeça além de uma diversão descompromissada.
Queria partir sem precisar ligar ou mandar cartões postais. Queria partir só pelo prazer de se ir. De migrar.
De ver o que é novo. De aprender com o que não é igual. Com o que não é próximo.
Queria andar num trem sem destino, só porque não é possível. Todo trem tem destino.
O carro vai mais livre, mas ah, o carro é bem menos legal.
Queria andar num trem sem trilhos.
Queria por um pé na frente do outro sem rumo certo.
Pra perto do mar.
Às vezes sinto uma saudade grande do mar. Como se fosse uma parte de mim que abortaram ao nascimento.
Às vezes sinto a maresia e o cheiro de sal na minha pele.
Talvez eu partisse para o mar.
Eu queria ir, livre. Tão livre quanto se pode ser.
Queria ir para poder voltar a qualquer hora.
Para que me recebessem de braços abertos.
Queria ir e queria que o mundo continuasse tranquilo, para que quando eu voltasse tudo fosse docemente diferente, e ainda assim familiar.
Queria voltar e ainda encontrar minha casa.
Post conjunto com o Martini Seco
Maria Anita11:24 AM
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Segunda-feira, Agosto 02, 2004
" Não é só o medo de estar vivo, tem também o pavor de morrer " Os malvados
O negócio é que estar vivo é bem difícil mesmo. Uma canseira só. Mais ou menos como escutar Bach. Cello Suite no. 1, o prelúdio. Pior imagino, só tocar. Mas não toco nada, não tenho ritmo.
A vida tinha que ser algo mais Beethoven. Algo como a nona.
A nona é tão feliz. Não tem medo de nada.
Bach se esconde nas sombras. Medroso coitado.
A vida é como a noite em volta da fogueira, escutando os barulhos no mato e temendo a onça. A onça nunca veio. Nunca. Nem passou perto. Mas o medo não deixava a gente jogar cartas direito.
Aquele rio escuro, aquela lua bem linda e amarela, e a gente besta com medo da onça.
Que medo de morrer mais bobo.
medo de morrer e dos mortos e dos vivos. medo de tudo.
Eu ando bem. Bem mesmo. Ando feliz com meus passos ainda arrastados. Meus passos que sempre ficam pra trás. Preguiçosos. Mornos. Ando como sempre. Ando sorrindo. Ando calma. Ando mais firme. Mais adulta. Mais eu mesma.
Ando ainda com aquele medo velado nos olhos. Uma certa postura arredia. Algo no jeito de pressionar os lábios firmemente. Algo bem distante mesmo de tudo. Vai estar sempre comigo acho. Uma desconfiança que nem bicho do mato. Não uma borboleta social, ou uma daquelas aves bem bonitas. Sou algo que vive bem na toca, no chão.
Não exatamente sozinha. Sozinha, creio, nunca estive. Sempre precisei de alguem pra pegar na mão. Cada um no seu casulo.
Na vida vou passeando com cautela, ultrapassando devagar com medo do caminhão vir bem rápido pelo outro lado e pow, acabou tudo. Sempre com medo de alguma coisa. Sempre com medo de que tudo acabe sem que o medo tenha realmente se ido.
Ainda serei bem firme e corajosa, tenho certa esperança.
Não muito, porque você sabe. Você sabe.
Maria Anita11:30 AM
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Domingo, Agosto 01, 2004
Enfim, voltei.
Depois de uma semana sem internet, tv, cinema, dvd e meu banheiro, estou bem feliz de estar em casa.
Curitiba foi o máximo, a semana acampada na beira do rio também.
Mas que saudade da comidinha lá de casa.
Maria Anita6:51 PM
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