Sete Faces



Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005


"Andorinha lá fora está dizendo:
Passei o dia à toa à toa"
(Manuel Bandeira)


Ando assim, à toa à toa.

Não exatamente de coisas para fazer.

É mais um estado de espirito.

É mais uma indolência (aprendi essa palavra outro dia) constante.

É mais uma vontade de ser de férias.

De ficar bem. Leve. Agua de coco, praia e ondas.

De ficar de rede. De filme. Beijinhos e ternurinhas.

Estou à toa de ter pegado cor na piscina aqui de casa.

De ter visto todos os filmes do oscar just because.

De ter relido livros infantis.

Visto de novo Pocahontas.

Levado cachorro para passear.

Estou à toa e não sei como é não ser, de novo.

Post Conjunto com o Martini seco

E lembranças ao Rafa, que está com os ultimos posts incriveis.



Maria Anita10:34 AM |
Sábado, Fevereiro 12, 2005


Mônica


Era uma boa mulher. Olhos grandes. Cílios escuros. Mãos macias e dedos finos. Tocava piano muito bem, se não fosse suas estranhas visões, sua intuição mágica, teria sido pianista. A primeira música que aprendera era sua preferida, ainda hoje. Era uma garota fiel.

Quando olhava no espelho enxergava uma mulher no meio da casa dos trinta. Solteira. Quase ex-fumante, que trabalhava e sentia demais. Enxergava uma mulher com uma risada feliz e olhos tristíssimos, que tinha medo de agulhas e desmaiara a primeira vez que vira um corpo. No espelho, via uma mulher que dera seu primeiro beijo em um primo, no México, a muito mais tempo do que era capaz de contar. Via uma mulher com cicatrizes e culpas. Com um amor intenso que era só dela para carregar. Um amor pesado, bobo, dolorido, que ela não sabia como fazer parar.

No começo, achara que passaria. Sempre passava... Mas estava enganada. Piorou, aumentou. A deixou doente e estúpida. Era assim, agora. E talvez, um dia, fosse explodir.




Jonas




Ele era um bom homem. Olhos azuis. Pele forte de sol. Tinha mãos cuidadosas, cabelos castanhos e curtos. Era um homem aparentemente duro. Ranzinza. Difícil. Mas qualquer um que passasse mais de um dia com ele saberia de sua suavidade. Que tinha um sorriso quente e solidário. Uma determinação férrea. Um coração dividido.

Carregava em pesadelos íntimos uma culpa que nunca passava. Uma culpa adulta e mal resolvida. Uma incompletude dolorosa, que magoava todo dia. Carregava em si uma sinceridade obstinada e o pensamento lógico e direto.

Sempre quisera ser policial. Sabia atirar aos onze anos. Bem antes de amar as garotas, amava as armas. Hoje, se pudesse, jogaria todas as balas no mar. Desaprenderia como puxar um gatilho. Como matar um homem. Mas não podia, então, seguia em frente.


O filho de Jonas


Era um menino bonito, inteligente e feliz. Se não tivesse morrido teria sido arquiteto. Teria sentido um misto de repulsa e orgulho pela profissão do pai. Se casado cedo com alguém chamado Anna.

Se tivesse sobrevivido, aos 30 anos cairia das escadas e quebraria a perna. Seu sorvete preferido seria o de Flocos com creme de caramelo.

Assistiria 29 vezes O Poderoso Chefão.

Quando morreu, levou consigo um pedaço de sua mãe, que nunca mais seria a mesma. Que começou a pintar e ter insônia. Que nunca mais assistiu ao Óleo de Lorenzo, apesar de ser um de seus filmes prediletos.

Quando morreu, levou um pedaço de seu pai, que nunca mais seria o mesmo. Deixou nele uma culpa, uma dor. Trouxe Mônica ao seu caminho, com quem passaria o resto de seus dias.

Quando os culpados de sua morte foram devidamente punidos, Jonas apareceu na casa de Mônica às 3:22 da manha. A madrugada estava fria. Ela estava de pijamas e pantufas, com os cabelos desgrenhados e nenhum sinal de que dormira.

Ele a apertou nos braços de forma imprecedente. Enrolaram-se no sofá e chorou.


----Historinha sobre nada -----



Maria Anita9:20 PM |
Terça-feira, Fevereiro 01, 2005


"Your heart won't heal right if you keep tearing up the sutures" (Nothing Better - The Postal Service)

Meu peito é besta, besta.

Esquece pouco.

Não cicatriza.

Tudo culpa minha, que não aceito direito as desculpas.

Que perdoo, mas esquecer, jamais.

Culpa minha, que me quebro de novo e de novo.

E não entendo que a vida continua.

Continua apesar de mim.

Post Conjunto com o Martini


Maria Anita10:35 AM |
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